‘Nem 8, nem 80’: a delicadeza de habitar o meio

Há uma pressa estranha em nossa maneira de viver. Precisamos decidir, responder, escolher um lado. Amar ou desistir. Ficar ou partir. Ser forte ou admitir que cansamos. Dar conta de tudo ou reconhecer a derrota. Como se a vida fosse uma questão de múltipla escolha, com apenas duas alternativas possíveis.
Nem oito, nem oitenta.
A expressão popular parece simples, mas guarda uma sabedoria que talvez tenhamos esquecido: a vida não cabe inteira nos extremos.
Vivemos um tempo que transforma quase tudo em polarização. Nas opiniões, nas relações, no trabalho e até na maneira como cuidamos de nós. Ou somos produtivos, ou somos preguiçosos. Ou estamos felizes, ou precisamos consertar alguma coisa. Até o autocuidado virou tarefa, com metas, aplicativo, planilhas, horários, registros fotográficos profissionais e resultados esperados.
E, nessa tentativa de acertar sempre, vamos perdendo a capacidade de simplesmente existir. É importante lembrar que, humanamente falando, é impossível acertar tudo, ser perfeito e dar conta de tudo (e que bom!).
Há 21 dias, vivemos uma enxurrada de certezas absolutas, lados rigidamente definidos e distâncias afetivas cada vez mais evidentes. Um tempo de convicções tão duras que parecem deixar poucas brechas para a escuta, para a dúvida e para a possibilidade de novos olhares. Como se rever uma ideia fosse sinal de fraqueza e reconhecer a complexidade do outro significasse abrir mão de quem somos.
Assim, o convite hoje é poder olhar para as contradições do desejo, para aquilo que nos falta e para a impossibilidade de encontrar no outro ou na vida uma completude definitiva. Fico pensando que é justamente aí que reside uma parte da nossa humanidade: podemos amar alguém e, ainda assim, sentir falta de espaço. Podemos desejar mudanças e ter medo delas. Podemos conquistar algo muito esperado e descobrir que a realização não elimina todas as nossas inquietações.
Uma coisa não anula necessariamente a outra.
É fundamental sustentar a posição de olhar para a complexidade dos vínculos, para nossas vulnerabilidades e para a necessidade de acolher experiências que não se resolvem com frases prontas. Há dores que precisam de tempo, relações que exigem conversas difíceis e sentimentos que não obedecem ao calendário da nossa vontade.
Mas nós temos pressa. Queremos respostas definitivas para perguntas que ainda estão amadurecendo dentro de nós. Tenho ressaltado que, para problemas complexos, nunca teremos soluções simples.
Há muito trabalho na simplicidade!
Talvez por isso o meio-termo seja tão difícil. Ele exige que suportemos alguma incerteza. Que não transformemos uma frustração em uma sentença sobre toda a nossa história. Que não confundamos um dia ruim com uma vida ruim, um erro com uma identidade, uma discordância com o fim de uma relação.
O meio não é ausência de posicionamento. É a possibilidade de olhar para uma situação por mais de uma perspectiva, sem abrir mão dos nossos valores.
É compreender que flexibilidade não significa aceitar tudo. Que empatia não exige concordância. Que perdoar não significa permanecer onde nos machucam. E que estabelecer limites também pode ser uma forma de amar.
Existe, porém, uma diferença importante:
buscar equilíbrio não é se acomodar diante do que precisa mudar. Há situações em que o limite precisa ser firme, a decisão precisa ser tomada e a distância se torna necessária. Nem toda conciliação é saudável. Nem todo meio-termo é justo.
O equilíbrio não está em dividir tudo pela metade, mas em reconhecer o que cada situação pede.
Na vida profissional, por exemplo, liderar não é escolher entre resultado e humanidade. É justamente o contrário: é construir condições para que as pessoas entreguem resultados sem que precisem adoecer para isso. Nas relações, não é escolher entre preservar a si mesmo e amar o outro. É aprender a construir encontros em que ninguém precise desaparecer para que o vínculo exista.
E, na relação com a gente mesmo, o grande desafio é abandonar a ideia de que precisamos ser extraordinários todos os dias.
Haverá dias em que avançaremos. Em outros, precisaremos descansar. Haverá momentos de coragem e outros em que o medo se sentará conosco à mesa. Podemos ser competentes e precisar de ajuda. Podemos ter clareza sobre muitas coisas e continuar confusos sobre outras.
Não somos incoerentes por isso. Somos humanos.
Amadurecer é justamente aprender a não transformar cada ambivalência em um problema a ser eliminado. É reconhecer que a vida acontece nesse espaço entre o que desejamos e o que conseguimos, entre o que sabemos e o que ainda estamos tentando compreender.
Nem oito, nem oitenta. Nem a exigência de dar conta de tudo, nem a desistência de tentar. Nem a dureza de quem não admite falhas, nem a permissividade de quem abandona os próprios limites.
Apenas a coragem de encontrar uma medida possível, sabendo que ela muda conforme o tempo, as circunstâncias e aquilo que estamos aprendendo a ser.
Para esta semana, fica uma pergunta: por que, tantas vezes, confundimos a nossa maneira de enxergar o mundo com a própria realidade e esperamos que o outro enxergue, sinta e escolha exatamente como nós?
Respira. Nem tudo precisa ser resolvido hoje. Algumas coisas precisam ser compreendidas. Outras, transformadas. E há aquelas que só encontram seu lugar quando deixamos de exigir que a vida seja oito ou oitenta.
E, para não esquecer: viver melhor não é chegar a um extremo.
É aprender a habitar o intervalo.
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