Um pouco de delicadeza e teimosia: De mim para mim

Marina Diva
Outro dia, brincando com aquela lista de “coisas que eu acho chique”, pensei que exista uma coisa que eu ainda não tenha visto colocado ali: uma mulher que sabe cuidar de todo mundo, mas que também aprendeu a não se abandonar no caminho.
Acho chique quem não precisa transformar exaustão em medalha. Quem consegue dizer “não”. Quem pede ajuda. Quem descansa sem apresentar justificativa. Quem ainda consegue começar alguma coisa só porque deseja, mesmo sem saber exatamente onde aquilo vai dar. Acho chique uma mulher que não compete com outras mulheres. Quem tem coragem para começar de novo sem transformar recomeço em fracasso.
Vamos de um assunto que quase nunca falamos? Quantas vezes a gente se dá inteira para os outros e, quando chega a nossa vez, oferece apenas o que sobrou?
Damos tempo, atenção, cuidado, presença. Resolvemos. Sustentamos. Acolhemos. Lembramos do aniversário, da consulta, da reunião, do trabalho que precisava ser entregue, daquilo que alguém precisava ouvir. E, quase sem perceber, vamos deixando para depois os nossos planos, os nossos sonhos, os nossos começos.
Depois eu descanso.
Depois eu leio aquele livro.
Depois eu volto a escrever.
Depois eu faço aquela viagem.
Depois eu vejo os amigos.
Depois eu começo.
Sabe qual é o problema?
A vida não costuma fazer alarde quando algo importante vai ficando para depois.
Não há uma sirene anunciando que estamos nos afastando de nós mesmas. Há pequenos adiamentos, aparentemente inofensivos, que vão se acumulando.
O sono que muda.
O cansaço que não passa.
A irritação que fica mais frequente.
A dificuldade de concentração.
A perda de prazer nas coisas que antes faziam sentido.
A vontade de se afastar de todo mundo.
A sensação persistente de vazio, culpa, desesperança ou de que simplesmente não damos mais conta.
Nem todo cansaço é depressão. Nem toda tristeza é doença. Mas quando esses sinais persistem, especialmente por duas semanas ou mais, interferem na rotina ou começam a mudar a forma como nos relacionamos com a vida, é hora de prestar atenção e procurar ajuda profissional. Depressão é uma condição de saúde complexa, resultado da interação de diferentes fatores, e tem tratamento.
E há um cuidado que não deveríamos adiar: se aparecer a sensação de que não há saída, de que a vida perdeu o sentido ou pensamentos de não querer mais estar aqui, isso merece atenção imediata e ajuda profissional. Não é frescura. Não é fraqueza. Não é falta de gratidão. É sofrimento que precisa ser cuidado.
Tenho escutado mulheres fortes. Mulheres intensas. Mulheres acostumadas a cuidar, conduzir, resolver, entregar. Mulheres que chegam ao tratamento para depressão muitas vezes depois de muito tempo funcionando no limite.
E vejo o quanto é importante dizer isso com delicadeza: depressão não é simplesmente o resultado de alguém ter se doado demais. Não existe uma única causa. Há diferentes dimensões biológicas, psicológicas e sociais envolvidas.
Mas há algo que essas histórias me fazem pensar: existe uma diferença entre ser forte e precisar ser forte o tempo inteiro.
Acredito que tenhamos aprendido a admirar tanto a mulher que aguenta que esquecemos de perguntar como ela está enquanto aguenta.
Há uma violência silenciosa na ideia de que precisamos merecer o descanso, justificar o desejo, concluir todas as obrigações antes de começar a viver aquilo que também nos faz bem.
Como se cuidar de si fosse prêmio (“não posso parar enquanto tem tanta coisa para fazer).
Como se o descanso precisasse ser conquistado (“tá pago”).
Como se o desejo pudesse esperar (“quando as coisas se ajeitarem, eu faço”).
Talvez não.
Algumas coisas precisam de delicadeza: começar sem saber exatamente onde vai dar, experimentar sem garantia de sucesso, voltar a fazer algo apenas porque aquilo nos dá alegria.
E algumas coisas precisam de teimosia.
A teimosia bonita de não desistir de si.
De insistir naquele projeto.
De não querer a perfeição.
De retomar uma amizade.
De marcar uma consulta.
De sair para caminhar.
De pedir ajuda.
De dizer não.
De mudar de caminho.
De começar de novo.
Tenho pensado que a revolução também pode significar isso: aprender a reconhecer aquilo que o mundo pede de nós sem deixar de escutar aquilo que nós pedimos de nós mesmas.
Porque existe um tipo de abandono que não acontece quando alguém vai embora.
Acontece quando permanecemos em todos os lugares, para todas as pessoas, menos dentro da nossa própria vida.
Então, de mim para mim:
que eu não precise adoecer para entender que também sou alguém de quem preciso cuidar.
Que eu não espere sobrar tempo para aquilo que importa.
Que eu não transforme meus sonhos em objetos de uma gaveta chamada “quando der”.
Que eu não confunda força com silêncio, independência com solidão ou cuidado com sacrifício.
E que, quando a vida exigir força, eu tenha força.
Mas que, quando ela não exigir, eu possa simplesmente ser delicada comigo.
Um pouco de delicadeza.
E um pouco de teimosia.
A necessária para continuar voltando para casa.
De mim para mim.
Mas, quem sabe, chegue aí:
Se estiver difícil por aí, procure alguém. Um profissional, uma pessoa de confiança, alguém que possa caminhar um pedaço desse caminho com você.
Respira, é humano!
Marina Diva
Leia também
Mais recentes
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…

