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Marina Diva de Oliveira

Autodescuido também é autoconsciência

Por Bruno
Autodescuido também é autoconsciência

Marina Diva

Existe uma ideia silenciosa que vem adoecendo muita gente: a de que cuidar de si é dar conta de tudo. Como se Saúde Mental fosse sinônimo de equilíbrio perfeito, como se a vida fosse um grande malabarismo onde nenhum prato pode cair.

Mas talvez seja justamente aí que a gente esteja se perdendo. A lógica do “equilibrar todos os pratos” é sedutora. Ela nos dá a sensação de controle, de competência, de valor, de suficiência. Seja no trabalho, na família, nas relações, no corpo, na espiritualidade, tudo precisa estar funcionando, bonito, produtivo. Só que essa tentativa de sustentação permanente cobra um preço alto: o apagamento de si.

Porque, em algum momento, para manter tudo de pé, alguém precisa cair. E, quase sempre, esse alguém somos nós.

É nesse ponto que uma frase que pode parecer estranha à primeira vista começa a fazer sentido: autodescuido também é autoconsciência. 

Não se trata de negligência ou abandono. Não é sobre desistir de si. É sobre reconhecer, com clareza, que não é possível cuidar de tudo ao mesmo tempo e que escolher não cuidar de algo, em determinados momentos, pode ser um ato profundo de preservação.

É urgente desmontar a fantasia de completude. Não existe um sujeito inteiro, pleno, que dá conta de tudo sem perdas. Somos atravessados por faltas, limites, desejos e contradições. E tentar negar isso, tentando sustentar uma imagem de equilíbrio absoluto, é uma das formas mais sofisticadas de sofrimento.

Cuidar de si, então, começa a se parecer menos com controle e mais com escolha.

Quais pratos você vai sustentar agora? Quais você vai deixar cair?

Essa pergunta não é simples. Ela toca em lugares delicados: culpa, medo de julgamento, sensação de fracasso. Afinal, fomos ensinados a associar valor à capacidade de dar conta. De não falhar. De não deixar nada escapar.

Mas há uma virada importante quando a gente entende que deixar cair não é fracassar. É priorizar.

É reconhecer que existem ciclos, fases, contextos. Há momentos em que o trabalho vai demandar mais. Outros em que a família pede presença. Outros, ainda, em que o único prato possível de segurar é o próprio corpo e, às vezes, nem ele conseguimos sustentar como gostaríamos.

E tudo bem.

Saúde mental não é sobre manter tudo equilibrado o tempo todo. É sobre construir uma relação mais honesta com os próprios limites. É saber ouvir os sinais internos antes que eles precisem gritar em forma de adoecimento.

É também permitir-se sentir.

Vivemos numa cultura que, ao mesmo tempo em que exige produtividade, vende a ideia de bem-estar rápido, positivo, leve. Como se sentir tristeza, cansaço, angústia ou dúvida fosse sinal de fraqueza ou algo que precisa ser corrigido o mais rápido possível.

Mas não existe travessia sem contato.

Se permitir sentir o gosto das experiências (inclusive das difíceis) é o que possibilita movimento. É o que abre espaço para uma virada de chave que não vem da negação, mas da elaboração. Dar nome as coisas é dar um endereço simbólico para a dor. Acolher, entender, dar contorno e encontrar as respostas que já estão dentro de nós.

Sentir não paralisa. O que paralisa é tentar não sentir.

Quando evitamos o contato com aquilo que dói, também nos afastamos daquilo que pode nos transformar. A dor, quando reconhecida e acolhida, pode se tornar linguagem. Pode se tornar compreensão. Pode se tornar escolha.

E é aí que o cuidado ganha uma nova camada.

Cuidar de si não é apenas fazer o que faz bem. É também sustentar o desconforto do que precisa ser visto. É abrir espaço para o que não está organizado, para o que não tem resposta pronta, para o que escapa do controle.

É, de certa forma, um exercício de coragem. Coragem de olhar para a própria vida e perguntar: isso ainda faz sentido?

Coragem de perceber que nem tudo precisa continuar.

Coragem de deixar cair o que já não se sustenta mesmo que isso doa, mesmo que isso desorganize. Há sempre uma nova porta para aprender a abrir.

Porque, muitas vezes, o que a gente chama de “equilíbrio” é apenas manutenção de algo que já perdeu o sentido.

E há algo profundamente libertador em reconhecer isso.

Talvez a saúde mental esteja menos na tentativa de manter tudo funcionando e mais na possibilidade de escolher com mais consciência. De reorganizar prioridades. De respeitar limites. De permitir pausas.

De entender que a vida não é um número fixo de pratos que precisam ser sustentados a qualquer custo, mas um movimento contínuo de ajuste, presença e escolha.

Então, se for preciso, deixe alguns pratos caírem.

Não como quem desiste, mas como quem escolhe.

E, ao fazer isso, talvez você descubra que cuidar de si não é sobre dar conta de tudo, é sobre não se perder de si no meio de tudo isso.

Porque, no fim, cuidar de si é ter coragem de escolher o que fica e o que pode, finalmente, ir.

Respira, é humano!

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