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Marina Diva de Oliveira

Todo mundo mente sobre a própria vida

Por Bruno
Todo mundo mente sobre a própria vida

Outro dia li uma frase que me atravessou: “Todo mundo mente sobre a própria vida. O que aconteceria se, em vez disso, você compartilhasse a verdade? Aquela única coisa que define você, que faz todo o resto a seu respeito se encaixar?”

Fiquei em silêncio por alguns segundos. Porque não é fácil responder. Talvez nada aconteça. Talvez, ao dizer a verdade, a vida siga como sempre. Mas talvez também aconteça tudo. Talvez um gesto de sinceridade seja capaz de abrir uma fresta, de iluminar a vida de alguém que nem sabemos que existe.

Essa provocação está no livro O pequeno caderno das coisas não ditas. Um experimento delicado: pessoas que nunca se viram escrevem no mesmo caderno fragmentos íntimos da própria história. Sem assinatura, sem pose, sem expectativa de resposta. Apenas a coragem de registrar o que dói, o que pulsa, o que nunca coube em lugar nenhum.

E eu fico pensando no que pode nascer quando experimentos assim acontecem. Porque a verdade, essa verdade íntima, aquela que a gente tenta esconder até de si, tem o poder de deslocar.

Nos acolhimentos, vejo isso o tempo todo. Quando alguém consegue dizer aquilo que nunca disse, algo muda. Não se trata de libertação no sentido romântico, como se falar resolvesse tudo. Não. Mas dizer é o início de um caminho. É como se a fala abrisse espaço para respirar. Esvaziar para o novo chegar.

Na vida, escondemos muito mais do que gostaríamos de admitir. Escondemos quando sorrimos para esconder o cansaço. Mentimos quando dizemos que “está tudo bem” só para não preocupar ninguém. Mentimos quando performamos versões de nós mesmos que são mais aceitáveis, mais produtivas, mais fortes, mais felizes.

Mas a saúde mental pede justamente o contrário: pede espaço para a verdade. Porque adoecemos naquilo que não dizemos. A angústia cresce no silêncio, o corpo grita o que a boca silencia. É o que os sintomas fazem: falam em nosso lugar.

Então eu me pergunto e convido você a se perguntar junto:
Qual seria a sua verdade?
Aquela única coisa que, se dita em voz alta, faria tudo o mais em você se reorganizar?

Não é fácil chegar nessa resposta. Talvez doa. Talvez dê vergonha. Talvez você ainda não esteja pronto. E tudo bem. O que não dá é para viver uma vida inteira sem nunca ousar chegar perto dela.

Porque quando alguém se arrisca a dizer, outras pessoas também se permitem. A verdade é contagiosa. A coragem também. E se há algo transformador nas relações humanas, é isso: um gesto de sinceridade que convida o outro a existir mais inteiro.

Saúde mental não é sobre “estar sempre bem”. É sobre poder ser verdadeiro consigo e com o outro. É sobre sustentar os pedaços de nós que são frágeis, contraditórios, imperfeitos.

Todo mundo mente sobre a própria vida. Mas, e se a gente ousasse menos mentira e mais verdade? Talvez nada. Ou talvez (e isso me parece mais bonito de acreditar) esse simples movimento mudasse não só a nossa vida, mas também a vida de alguém que a gente nem conhece?

Ah, para essa semana fica a seguinte mão na massa: aproveite e conte para alguém que você deseja, o quanto ela faz sentido na sua vida sendo exatamente quem é.

Respira. É humano.

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