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Marina Diva de Oliveira

Bem-estar: o corpo carrega os sonhos

Por Bruno
Bem-estar: o corpo carrega os sonhos

Marina Diva

Gosto muito de lembrar meu corpo que gosto de morar nele porque ele carrega meus sonhos. Parece simples, mas você já percebeu o quanto a sociedade transformou o bem-estar em produto? Dietas da moda, corpos ideais estampados em telas, rotinas perfeitas e sem furo, compartilhadas como se fossem um manual de boas práticas que acabaram moldando uma régua: se eu não alcanço aquilo, será que estou falhando? A má notícia é que a cada tentativa de se encaixar em um padrão que não nos pertence, a saúde mental vai se fragilizando. A boa notícia é que sempre vai faltar algo (e quem bom!) e a nossa potência é justamente o que nos diferencia dos outros.

Corpo perfeito, vida perfeita, relacionamento perfeito: nada disso existe. Essas imagens não nasceram do real, mas de uma sociedade do consumo que encontrou na ilusão da perfeição um negócio lucrativo. A indústria do bem-estar muitas vezes não cuida, vende. Vende suplementos, tratamentos, estéticas, métodos infalíveis, sempre sustentados pela ideia de que ainda falta algo em nós. E, como sempre vai faltar algo em nós, o resultado? Um ciclo de consumo e frustração, onde nunca somos suficientes. É um mercado que lucra com a nossa insatisfação e que, ironicamente, alimenta mais sofrimento do que saúde.

Talvez seja hora de arriscar outros arranjos. Talvez o bem-estar não esteja na medida que o mundo inventou, mas na experiência viva que cada corpo é capaz de sustentar. O corpo é um território a ser explorado com curiosidade. Ele é um sistema vivo, hiperconectado em si e no ambiente. Não acredito que bem-estar seja caber em uma calça, mas se encantar com o que o corpo pode fazer: correr quando está atrasado, dançar até perder a hora, abraçar alguém com firmeza, repousar em silêncio depois de um dia difícil. É se apaixonar pelo movimento e pela vida que pulsa em nós, mais do que pela aparência que mostramos.

E aqui uma pergunta essencial: estar vivo é suficiente? Para algumas pessoas, sim. A simples existência já é saúde: o respiro, o coração que bate, a chance de estar na vida vivenciando tanta coisa. Para outras, é ter energia para o cotidiano, vínculos que nutrem, uma rotina que não encolhe. Não existe verdade absoluta! O que importa é compreender que não existe uma única régua. O que sustenta você pode não sustentar o outro e que bom, é assim que a gente cresce (na soma).

Mas é justamente quando tentamos caber na régua do outro que o adoecimento mental se intensifica. A pressão estética e a cultura da performance estão entre os fatores que mais alimentam transtornos como ansiedade, depressão e distúrbios alimentares. Pesquisas recentes reforçam: o excesso de comparação, muitas vezes potencializado pelas redes sociais (que de social não tem nada, risos), se tornou um dos grandes gatilhos do sofrimento psíquico contemporâneo.

No livro O perigo de estar lúcida, Rosa Montero nos provoca a refletir sobre esse peso. A lucidez, ao revelar a engrenagem que transforma saúde em mercadoria e bem-estar em obrigação, pode ser tão dura quanto necessária. É perigoso estar lúcido quando o mundo insiste em nos anestesiar com padrões inalcançáveis. Manter essa clareza exige coragem. Talvez o desafio esteja em encontrar arranjos mais humanos: reconhecer que o bem-estar não é um peso a carregar, mas um espaço de respiro que nos devolve inteireza.

A Organização Mundial da Saúde já ampliou, há décadas, a definição de saúde para além da ausência de doenças, incluindo o bem-estar físico, mental e social. Mas se ficarmos apenas no discurso institucional, corremos o risco de esquecer o cotidiano concreto. É preciso aproximar essa ideia da vida real: o bem-estar que cabe em você pode ser dormir uma hora a mais, pode ser uma conversa honesta, pode ser dar-se a chance de não produzir o tempo todo.

Respire. Pergunte-se: que tipo de bem-estar me sustenta hoje? A resposta não precisa caber em manual algum, muito menos na régua de alguém. Basta caber em você, no seu corpo, na sua vida, no seu ritmo. Porque, no fundo, todo excesso esconde uma falta. E talvez o segredo esteja justamente nas coisas “desimportantes”, aquelas que não aparecem em propagandas de saúde, mas que alimentam a vida real. Experimente este mês:

  • Um café tomado com presença;
  • Um abraço que acolhe;
  • Uma ligação para quem sente saudade;
  • Uma caminhada prestando atenção no percurso;
  • Um banho acompanhado de uma boa música;
  • Uma comidinha simples, feita em casa.

Esses pequenos gestos, que não cabem em nenhuma régua de perfeição, são os que nos lembram de que bem-estar é humano, porque somos, antes de tudo, seres de relação. Respira, é humano.

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