As voltas dão muita vida

Marina Diva
Quando eu era mais jovem imaginava que crescer era uma espécie de linha reta. Tipo estudar. Trabalhar. Escolher. Acertar. Seguir em frente. Por ai também?
Ninguém nos contou que a vida gosta de curvas.
Há quem volte para a cidade onde jurou nunca mais morar. Há quem reencontre um amor, uma profissão, uma fé, um sonho que parecia ter ficado para trás. Há quem precise voltar para casa, para os pais, para si mesmo. Há quem retome a terapia, quem recomece uma faculdade aos cinquenta anos, quem descubra que a coragem, às vezes, não está em ir embora, mas em regressar.
Vivemos em uma cultura que celebra o novo. O próximo passo. O próximo cargo. A próxima conquista. O sair da zona de conforto.
Mas talvez exista uma beleza pouco comentada nas voltas.
Porque voltar não é repetir. Voltamos diferentes. "Nenhum homem pode entrar duas vezes no mesmo rio, porque nem o homem é o mesmo, nem o rio é o mesmo" já diz Heráclito.
A mulher que retorna ao mesmo lugar não é a mesma que partiu. O homem que revisita uma antiga dor já não possui os mesmos olhos. O filho que reencontra os pais carrega agora perguntas que antes não sabia fazer. O profissional que muda de rota leva consigo experiências que não caberiam em nenhum currículo.
As voltas não anulam o caminho percorrido. Elas o ampliam.
Na natureza ensina sobre ciclo, sobre o tempo das coisas e mostra que desenvolver é respeitar o tempo de cada coisa. Não se preocupe: quase nada é linear. As estações retornam. A lua reaparece. O mar insiste em ir e vir. Até o coração trabalha em ciclos, alternando contração e relaxamento. A grande sabedoria está em perceber que a existência também pulsa assim.
Essa semana o convite é lembrar que voltamos muitas vezes aos mesmos temas, não porque tenhamos falhado, mas porque algumas perguntas exigem mais de uma temporada da vida para serem compreendidas. Podemos falar que o tempo de cada um é um tempo diferente em cada um.
E, talvez as voltas deem tanta vida porque a existência não se organiza em linha reta. E pensarmos que há um instante de ver, um tempo para compreender e um momento de concluir. E é justamente nesse segundo tempo (o mais demorado, o das idas e vindas, dos retornos e das perguntas) que muita coisa acontece. Afinal, ninguém entra duas vezes no mesmo rio. Quando voltamos, as águas já são outras. E nós também.
E isso é profundamente humano.
Talvez você esteja vivendo uma dessas fases em que parece ter dado alguns passos para trás. Talvez esteja recomeçando algo que imaginava encerrado. Talvez esteja revendo escolhas, recolhendo pedaços, mudando de ideia.
Não tenha tanta pressa em chamar isso de retrocesso.
Há caminhos que só podem ser percorridos em espiral.
A vida não é uma escada.
É mais parecida com uma conversa. E, nas boas conversas, voltamos aos assuntos importantes. Não porque esquecemos o que foi dito, mas porque amadurecemos o suficiente para entendê-los de outro jeito.
Há algo muito bonito aqui: as voltas pertencem ao tempo para compreender. E talvez seja justamente aí que a vida mais acontece.
Tenho tido a alegria de descobrir, saindo um pouco do controle e performando menos na vida, que algumas das melhores coisas que me aconteceram vieram pelas estradas que não estavam no mapa. E que muitos dos encontros mais bonitos da vida aconteceram justamente depois que precisei refazer a rota.
As voltas me devolveram pessoas.
Me devolveram perguntas.
Me devolveram partes de mim.
Observe bem, no fundo não somos feitos apenas das partidas que tivemos coragem de enfrentar. Somos feitos também dos retornos que tivemos humildade de acolher.
Penso que essa é uma das grandes surpresas da maturidade: perceber que nem toda volta é um desvio. Algumas são o próprio caminho.
Porque as voltas, definitivamente, dão muita vida.
Há coisas que só florescem quando temos a coragem de passar por elas mais de uma vez. Respira, fica um pouco! É humano!
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