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Marina Diva de Oliveira

Saúde Mental também é isso: ter onde colocar o que se sente

Por Bruno
Saúde Mental também é isso: ter onde colocar o que se sente

Tem uma cena silenciosa que atravessa muitas relações e talvez você se reconheça nela: alguém próximo está diferente. O olhar está longe, o corpo desanimado, as respostas curtas ou duras demais. Algo está ali, evidente, mas não dito.

E então nasce a pergunta que hoje nos visita: o que você faz quando o outro claramente não está bem?

Tem quem vá direto. Pergunta, insiste, tenta abrir caminho. Quer entender, resolver, aliviar. É um impulso que, muitas vezes, nasce do cuidado, mas também pode carregar uma certa ansiedade: a dificuldade de sustentar o desconforto sem agir.

E tem quem recua. Observa, respeita o silêncio, espera. Às vezes por sensibilidade. Outras, por medo de invadir ou até de se implicar demais.

No meio disso, existe um território delicado: o limite entre cuidar e invadir.

No livro Os Quatro Compromissos, há uma ideia simples, mas profundamente desafiadora: não fazer suposições. Parece básico e simples, mas, na prática, fazemos o tempo todo. Olhamos para o outro e já criamos uma narrativa interna: “está bravo comigo”, “aconteceu algo grave”, “preciso ajudar”.

E, sem perceber, deixamos de ver o outro como ele é e passamos a nos relacionar com a história que criamos sobre ele.

Mas aqui vale dar um passo a mais. Porque, quando falamos de saúde mental, não estamos falando apenas de comportamento. Estamos falando de experiência interna. De afetos que, muitas vezes, nem o próprio sujeito consegue nomear.

E esse é um ponto central.

A angústia não é apenas um sintoma a ser eliminado. Ela é, muitas vezes, um sinal, um pedido de elaboração. Algo que ainda não encontrou palavras, mas que já encontrou o corpo (e pode vir recheadinho de sintomas, como: um aperto no peito, uma respiração curta, um nó na garganta, um cansaço sem explicação, dores que mudam de lugar e que insistem em aparecer, alterações no sono, no apetite, na energia).

Por isso, quando vemos alguém irritado, distante, impaciente ou em silêncio, é comum tentarmos intervir no comportamento: “calma”, “não fica assim”, “vamos resolver isso”, “você precisa reagir”.

Sem perceber, podemos estar pulando uma etapa essencial: a nomeação daquilo que está sendo vivido.

Sem nome, a angústia se intensifica. Com nome, ela começa a ganhar contorno e, aos poucos, possibilidade de elaboração.

Cuidar da saúde mental, nesses momentos, não é corrigir o comportamento do outro. É favorecer um espaço onde ele possa, se quiser e quando puder, reconhecer o que sente. É muto mais sobre acolher, escutar, dar permissão!

E isso muda a qualidade da presença.

Porque, ao invés de tentar tirar o outro do lugar onde ele está, você passa a oferecer um lugar onde ele possa se encontrar.

Algo como:

“Eu percebo que você está diferente, talvez mais quieto, mais tenso. Se fizer sentido, podemos tentar entender juntos o que está acontecendo.”

Percebe a diferença?

Não é invasivo, mas também não é indiferente. É uma presença que abre possibilidade e sem impor caminho.

Aqui, o terceiro compromisso do livro também conversa com esse cenário: ser impecável com a palavra.

E ser impecável não é falar bonito. É falar com responsabilidade emocional. É não usar a palavra para pressionar, minimizar ou interpretar o outro antes da hora para sustentar um campo de segurança.

Porque saúde mental também é isso: ter onde colocar o que se sente.

Ao mesmo tempo, há um cuidado importante que não pode ser esquecido: você também está na cena. E aqui entra uma pergunta honesta: o que no desconforto do outro te mobiliza tanto?

Às vezes, a urgência em ajudar não é só sobre o outro. É sobre o quanto nos é difícil sustentar a angústia a dele e a nossa. Muitas vezes nos vemos na dor do outro e é muito mais fácil falar sobre o outro do que falar sobre o que nos toca.

Por isso, cuidar de si, nessas situações, também é reconhecer seus limites. É entender que você pode oferecer presença, escuta, disponibilidade e não pode atravessar o processo do outro no lugar dele.

Nem toda dor precisa ser resolvida imediatamente (nem para tudo tem jeito, meus raros).

Algumas precisam, primeiro, ser reconhecidas. E isso vale para o outro e para você.

Talvez a grande maturidade emocional esteja em sustentar esse lugar de fronteira:

entre querer ajudar e saber esperar,

entre perceber e não supor,

entre acolher e não invadir.

Porque, no fim, saúde mental não se constrói na pressa de mudar o que aparece e sim na coragem de nomear o que, por muito tempo, ficou sem linguagem.

Na melhor das hipóteses: nem todo comportamento pede correção. Alguns pedem tradução. E é na escuta que a angústia começa, enfim, a ter nome e lugar.

E para fechar, vou pedir licença poética para Rubem Alves: a gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção.

Respira! É humano!

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