Ser a gente mesmo pode ser doido

Marina Diva
Doido mesmo.
Porque tem dias em que a gente acorda e, antes mesmo de saber como está, já sabe o que aconteceu no mundo.
O celular está ali.
Uma notificação.
Depois outra.
Uma mensagem.
Um vídeo.
Alguém viajando.
Alguém emagrecendo.
Alguém abrindo uma empresa.
Alguém terminando uma empresa.
Alguém descobrindo o propósito da vida às 6h17 da manhã. E a gente tentando descobrir onde colocou o próprio.
Essa é uma das ironias do nosso tempo: nunca tivemos tantos recursos para facilitar a vida. E nunca tivemos tantas maneiras de nos distrair dela.
Não estou dizendo isso para culpar a tecnologia. Seria fácil demais (e injusto) transformar o celular no vilão da história.
A tecnologia é uma das maiores construções humanas.
Aliás, o que melhor nos define como espécie seja justamente nossa capacidade de construir.
Desde muito cedo, aprendemos a transformar o mundo para torná-lo habitável.
Fizemos o fogo.
Construímos casas.
Inventamos a escrita para que a memória não dependesse apenas da nossa cabeça.
Criamos cidades, máquinas, medicamentos, aviões, computadores. Chegamos à Lua.
Agora conversamos com máquinas que respondem em segundos perguntas que, durante séculos, levariam uma vida inteira para serem investigadas.
É extraordinário.
Mas há uma coisa curiosa nessa história toda: quanto mais conseguimos construir fora de nós, mais precisamos aprender a construir dentro.
E essa parte continua difícil.
Porque dentro da gente não existe botão de atualização.
Não há aplicativo capaz de eliminar definitivamente a angústia.
Nem inteligência artificial que consiga responder por nós à pergunta mais antiga: o que eu quero?
Sabe de uma coisa: a experiência humana carrega uma característica da qual ninguém escapa: a falta.
Sempre haverá alguma coisa que não temos. Alguma coisa que não sabemos. Alguma pessoa que não podemos controlar.
Alguma despedida. Algum desejo que não se realiza exatamente como imaginamos.
Alguma versão de nós mesmos que ficou pelo caminho (ufa, quantas versões!).
Compreender justamente esse território estranho onde desejo, falta, medo e angústia se encontram é uma grande tarefa (uma gigante e constante tarefa)! Uma das coisas mais difíceis que temos aprendido é aceitar que nem todo vazio é um problema a ser resolvido.
Alguns vazios precisam ser atravessados.
Mas nós vivemos em uma época que tem muita dificuldade com o vazio: se estamos tristes, precisamos melhorar. Se estamos cansados, precisamos produzir melhor. Se estamos sozinhos, precisamos nos conectar. Se não sabemos o que fazer, abrimos uma tela. Se alguma coisa dói, procuramos alguma coisa que faça barulho suficiente para não escutarmos.
É compreensível. Ninguém gosta de sofrer, eu sei!
E é justamente aí que penso que exista uma diferença importante entre cuidar da própria dor e fugir dela o tempo inteiro.
Uma coisa nos transforma. A outra apenas nos distrai.
Já pensou que o não nomear nos leve a, no meio de tanta conexão, tanta informação e tanta possibilidade, sentir distantes de si mesmas?
A gente sabe o que acontece com os outros. Às vezes, sabe até o que os outros estão comendo, pensando, viajando, comprando e sentindo. Mas será que ainda sabemos como estamos?
Essa pergunta parece simples, não é. Mas não é.
Porque ser a gente mesmo exige uma coragem que não costuma aparecer nas fotografias.
É precisar dizer “não sei”.
É perceber que determinada escolha já não faz sentido.
É parar de sustentar uma versão de nós mesmos só porque ela foi muito bem aceita.
É descobrir que aquilo que funcionou durante uma fase da vida pode não servir mais para a próxima.
É conseguir dizer: “eu mudei”. E, mais difícil ainda: “eu não quero mais isso.”
Autenticidade, para mim, não tem muito a ver com sair dizendo tudo o que pensamos.
Tem mais a ver com diminuir a distância entre aquilo que sentimos, aquilo que acreditamos e a maneira como estamos vivendo.
Não é uma vida sem contradições. É uma vida em que começamos a perceber nossas contradições.
Não é ter todas as respostas. É conseguir manter algumas perguntas (e que bom!).
Acredito que uma vida mais qualificada comece justamente aí: naquela caminhada sem transformar cada passo em desempenho. Um livro lido sem a obrigação de terminar. Um encontro que não precisa virar fotografia. Um domingo que não precisa ser produtivo.
Um “não” dito antes que o corpo precise gritá-lo. Uma noite em que a gente consegue ficar alguns minutos em silêncio sem sentir que está perdendo alguma coisa.
Parece pouco, eu sei. Mas é muito!
Existe uma diferença enorme entre ter uma vida cheia e ter uma vida habitada.
A primeira pode ser medida pela quantidade de coisas que cabem na agenda.
A segunda, pela quantidade de nós mesmos que conseguimos colocar dentro dela (e essa me interessa mais).
No fim, ser a gente mesmo seja mesmo um pouco doido. Porque significa aceitar que nunca estaremos completamente prontos.
Que sempre haverá alguma falta. Alguma dúvida. Alguma angústia. Alguma coisa para aprender.
E tudo bem.
Confie: a vida não precisa nos entregar completude para ser boa.
Precisa apenas nos devolver, de vez em quando, para nós mesmos.
Para o cafezim quente.
Para a conversa demorada.
Para o abraço.
Para o silêncio.
Para aquilo que não precisa ser publicado.
Para as pequenas coisinhas possíveis.
Para a vida que acontece enquanto a gente estava ocupado demais tentando construir uma vida perfeita.
No meio de tudo o que a humanidade construiu para dominar o mundo, ainda estamos aprendendo a habitar a nós mesmos.
E esse é um dos trabalhos mais bonitos e mais doidos de uma vida inteira. Vamos?
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