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Marina Diva de Oliveira

Do luto, a luta

Por Marina Diva · Colunista· 4 min de leitura
Do luto, a luta

“Fechei os olhos e pedi um favor ao vento: leve tudo o que for desnecessário, ando cansada de bagagens pesadas.” — Cora Coralina

Novembro começa com um convite à memória. O Dia de Finados, logo no início do mês, vem como uma das pausas mais necessárias que o calendário nos oferece, especialmente quando o ano se aproxima do fim e já começamos a contabilizar os dias, as metas, os planos que não saíram do papel, os encontros adiados, os cansaços acumulados, as ausências e aquilo que ainda precisa ser vivido.

É um dia para lembrar quem partiu, revisitar histórias, recontar experiências, reencontrar afetos e, quem sabe, reorganizar algumas coisinhas dentro da gente. Sempre penso que lembrar também é uma forma de reconstruir, de reposicionar, de sustentar um lugar em nós. A certeza que temos é que o passado não pode ser alterado, mas a maneira como o carregamos pode mudar.

Gosto de pensar que novembro nos oferece essa oportunidade:

  • uma pausa para olhar o caminho percorrido antes de correr para o próximo ano;

  • um convite para reconhecer o que merece permanecer, o que precisa ser cuidado e aquilo que já podemos deixar descansar.

Começar com o Dia de Finados é, ainda, uma forma de falar sobre a morte. Das pequenas mortes simbólicas e subjetivas que temos no nosso dia a dia, mas também da morte daqueles que amamos e que parece escancarar um tanto de nós.

Da morte do meu pai, aprendi algumas coisas (a duras penas, confesso). Não foram aprendizados escolhidos, daqueles que encontramos nos livros ou nas conversas bonitas sobre a vida. Foram aprendizados que chegaram sem pedir licença, no meio da ausência, quando a realidade já não oferecia a possibilidade de voltar atrás. Da dor doída em meio ao vazio! Esse pedacinho aqui, entre a desesperança, o medo e a luta, para que eu me lembrasse de que existe um lugar. Que cada pessoa consiga encontrar, nessas palavras, um pouco da própria história:

  1. Aprendi que a morte não encerra o amor. Que nem para tudo existe jeito, explicação ou reparação. Que o controle é uma ilusão que cultivamos para suportar a imprevisibilidade da vida.

  2. Aprendi o valor do tempo. Não daquele que contamos no relógio, mas daquele que temos para estar juntos. O tempo de hoje. O abraço que não deve ser adiado, a palavra que precisa ser dita, o amor que não deveria sentir vergonha de ser exagerado. Aprendi que vale a pena amar demais, contar que ama, demonstrar, insistir nos encontros e viver a intensidade dos afetos. Porque algumas das coisas mais importantes da vida não cabem em uma agenda.

  3. Aprendi que sou um tanto dele que permanece vivo em mim. Nos gestos, nas lembranças, nas histórias que conto e até nas partes de mim que só reconheço quando olho para trás. Há pessoas que deixam de estar no mundo, mas continuam participando da nossa maneira de existir. A ausência muda a forma da presença, mas não apaga o que foi construído.

  4. Também aprendi que a força, às vezes, chega quando a gente menos se sente capaz. Não porque a dor nos torne melhores ou mais fortes, nem porque exista alguma beleza obrigatória no sofrimento. Mas porque a vida, mesmo quando parece impossível, continua nos convocando.

  5. Uma das coisas mais difíceis foi compreender que o mundo não para para que a gente conserte o coração. Os dias continuam, as pessoas seguem seus compromissos, o relógio não diminui o passo. Enquanto uma parte de nós tenta compreender a ausência, a vida continua acontecendo do lado de fora.

  6. Precisamos de gente ao lado. Gente que não tenha pressa de nos consertar, que saiba respeitar os silêncios, que ofereça presença quando faltam palavras. Gente que nos lembre de que ainda estamos aqui. Que há vida acontecendo e que não precisamos atravessar tudo sozinhos.

  7. Viver não significa estar sempre inteiro, resolvido ou disponível. Há dias em que a gente apenas segue. Há saudades que não passam, apenas encontram outros lugares para morar. E há amores que continuam sendo parte de nós, mesmo quando já não podemos encontrar seus donos.

Por isso, neste novembro, meu convite é que a gente faça uma pausa. Que se permita lembrar, sentir saudade, procurar fotografias antigas, contar histórias que já foram contadas tantas vezes. Que diga aos vivos o quanto são importantes. Que não economize afeto nem deixe para depois tudo aquilo que dá sentido aos nossos dias.

Que a gente tenha coragem de rever as bagagens que carrega. Nem tudo precisa ser levado adiante. Mas algumas lembranças merecem permanecer. Algumas histórias precisam continuar sendo contadas. E alguns amores, mesmo atravessados pela morte, merecem seguir fazendo parte da vida.

Quando alguém que amamos parte, deixa um aprendizado: a vida é breve demais para ser vivida no automático e preciosa demais para ser adiada. Breve, mas não curta! E bonita também!

A luta não é contra a morte. É para que a ausência não nos roube a capacidade de viver.

Respira, é humano e aproveita para tomar um cafezinho com quem você está com saudade!


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