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Domingos Sávio Calixto

O herói e a fúria

Por Bruno
O herói e a fúria

CREPÚSCULO DA LEI - ANO VIII – CCCXLVIII

O grande ensinamento, ou quase sua totalidade, da moral grega reside nas linhas poéticas da obra “Ilíada” (Homero), na qual versos trazem o memorial épico da famigerada “Guerra de Tróia” - o que seria hoje gregos contra turcos.

A “Ilíada” e a “Odisseia” (também Homero) serão obras recitadas, decantadas, enaltecidas por gerações e gerações com o propósito de fundamentar os padrões da moral helênica e, consequentemente, todo padrão moral eurocentrista, que mais tarde foi rebatizado e convertido em “ocidente”.

Isto posto, eis a base da moral ocidental: a fúria! “Ilíada” é um livro sobre a fúria genocida de um modelo comportamental: Aquiles. E é assim que o livro começa, “Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles...”

No início do livro a guerra já está em seu décimo (e último) ano. A leitura já expõe o meio da catástrofe, ou seja, a “mênis” – a cólera devastadora.  Aquiles está furioso pela perda de uma escrava – conquistada em batalha - a qual lhe foi tomada por Agamênnon.

Ele, Aquiles, resolve não mais lutar, em face de humilhação. Durante meses, assiste a diversas derrotas gregas impostas pelos troianos, liderados por Heitor. Ocorre que Heitor mata Pátroclo, companheiro de relacionamento militar e aristocrático. Ao modo grego, cunho afetivo de Aquiles, eram muito próximos.

Esse é o ponto da fúria extrema, inumana, praticamente cósmica. Aquiles se transforma em uma besta imparável, sanguinária. Ele mata tantos troianos, mata tantos, que o rio Escamandro, tomado por corpos e sangue, não consegue mais fluir.

Aquiles mata todos que vê pela frente, nada de súplicas, nada de rendição. Nem prisioneiros, nem jovens, nada é poupado. É uma “besta-fera” descontrolada. Até os deuses ficam estarrecidos com tamanho descontrole.

Aquiles mata Heitor. Perfura os tendões do cadáver. Amarra o corpo ao seu carro de combate e o arrasta em torno das muralhas de Troia, durante 12 dias – até Apolo intervém para proteger o cadáver da putrefação.

Além disso, durante os funerais de Pátroclo, Aquiles captura 12 jovens da alta classe troiana. Depois de amarrados, são degolados, um por um, na cerimônia. Muitos soldados não conseguem nem assistir.  Os deuses não acreditam em tamanho ódio. Até o corpo de Heitor ser suplicado devolvido, essa é a história de Ilíada. É onde ela termina, expondo a epopeia de fúria de um homem. Aquiles. 

A obra termina sem Aquiles entrar em Troia, sem participar da operação liderada por Ulisses. Aquiles morre antes, em plena “glória”.  Esse é o padrão moral grego, padrão ocidental, calcado na fúria e na matança desmedida. 

Parece que tal ética foi bem ensinada e aprendida, pois, desde então, e até os tempos atuais, o ocidente chama de “heróis” todos aqueles que agem desta forma, ou seja, a “glória” ocidental é matar impiedosamente todos os “inimigos”. 

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