O mistério da Cachoeira do Caixão

Domingos Sávio Calixto - CREPÚSCULO DA LEI - ANO VIII – CCCLI
Trata-se de conto tenebroso, pois tenebrosos serão os fatos que aqui serão narrados, espectros sombrios na memória dos antigos – e intrigados – moradores de Divinópolis, graciosa cidade mineira que festeja 114 anos em 2026. Ao escrever sobre o episódio, calafrios insistem em comprometer a narrativa.
Pois bem. A verdade começou de forma soturna. A família suiça chegou a Divinópolis na segunda metade da década de 1940. A bagagem veio trazendo ainda cheiro de pólvora de uma guerra impiedosa. Se instalaram em um bairro tradicional da cidade.
Debaixo da placidez que disfarçou a rotina e o cotidiano da chegada, a família construiu um castelo como residência entre os anos 1954 e 1956. Conhecido como o famoso CASTELO DO SUIÇO, foi testemunhado pelos mais audazes operantes da espreita local. Tudo em brumas para os temores da vizinhança devota da verdade, que regozijavam.
O quarteirão se constrangia com aquela estrutura imponente. O CASTELO DO SUIÇO era capaz de sequestrar o olhar de cada um para o alto, principalmente quando seu relógio acenava para as dimensões do arredor com badaladas que pareciam estagiar as trombetas do apocalipse. Narram escondidas testemunhas sempre ouvirem surtos melancólicos, ao som de caprichos do violino demoníaco de Paganini.
Preces ouvidas ou não, aconteceu que, numa manhã silenciosa de 1962, vizinhos esgueirados entre fendas viram caminhões partirem. Viram malas, baús, móveis e acenos ensaiados sendo levados em uma peça fúnebre que poderia ser chamada de “mudança”, desde que ao som de um requiem. A família suíça foi-se. O CASTELO SUIÇO ficou.
O terror urbano não tem bairro, mas gerou a lenda que se arrasta naquelas imediações por conta de uma única janela do terceiro andar do castelo, a qual insistia em mostrar luzes acesas sempre que o relógio espancava as doze damas da noite.
Sete madrugadas e depois a luz desapareceu com o som. O som parou na sétima mãe do crepúsculo do aniversário da cidade. O silêncio invadiu o imóvel. Anos rastejantes de meses claudicantes o cercaram. O mato cresceu. Os muros escureceram. Pais e crianças passaram a evitar a rua depois do pôr do sol.
Mas a moléstia do medo produz fantasmas. Moradores mantinham-se escutando as batidas do relógio torturando as horas-vezes ao ano no aniversário da cidade, e aquele grande relógio do castelo, tal qual um arauto do Tártaro, gritava os doze castigos em badalos.
A ciência não poderia aceitar tamanha insolência. Um professor aposentado resolveu investigar. Entrou sozinho no castelo, véspera do aniversário da cidade, encarou sozinho o monstro de ponteiros que o desafiava com um estático peso de bronze em forma de pinha, preso em uma corrente enferrujada.
O professor não se conteve com a encarada. Era um cartesiano. Atreveu-se a seguir uma trilha de poeira estendida numa camada grossa de pó atravessada por marcas de passos que levava ao sótão. O professor, teimosia científica, seguiu as marcas. Caminhou len-ta-men-te e avistou, com o resto de luz que seus olhos trêmulos buscavam, um caixão!
Tomado de horror, sentiu sua alma agarrar-se aos seus lábios para fugir pela boca, mas sua língua neutralizante, feito um cárcere, prendeu-lhe o grito. Repentinamente, o relógio badalou e amaldiçoou o tempo com suas últimas badalas. O professor nunca mais foi visto. Nem o caixão (...).
No dia seguinte, transeuntes juraram terem visto um caixão sendo carregado pelo cortejo das águas do Rio Itapecerica, em cujo local sucumbiu-se esse triste infortúnio. Até hoje a lápide memorial mantém o féretro naquelas margens. Assim conhecida, a CACHOEIRA DO CAIXÃO carrega consigo esse funesto segredo.
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