Aquiles X Lúcifer

CREPÚSCULO DA LEI - ANO VIII – CCCL
Aquiles luta contra Tróia no livro “Ilíada”. No livro de continuação – “Odisseia” – Aquiles está morto e se encontra no Inferno. Lá Odisseu vai encontra-lo (Canto XI) e tenta homenageá-lo, dizendo que nenhum homem foi tão feliz ou glorioso quanto ele: honrado em vida entre os homens e poderoso entre os mortos.
Todavia, o outrora arrogante e poderoso Aquiles está tomado por outro sentimento. Com perspectiva devastada, Aquiles diz o seguinte: “É preferível ser servo de um camponês pobre, vivo, do que reinar sobre todos os mortos.”
Essa fala de Aquiles demonstra como sua lógica de glória imortal em vida colapsou. O guerreiro que havia escolhido morrer jovem para alcançar fama eterna descobre, no inferno do Hades, que a morte esvazia a glória. No seu pensamento, nenhum morto é majestoso; todos são sombras, ecos enfraquecidos dos vivos.
Pois bem. Em outra obra, “Paraíso Perdido”, de John Milton, Lúcifer é derrotado na batalha celestial e, consequentemente, lançado caído para as profundezas do Inferno. Ali, anjo que já fora chamado de “Estrela da Manhã”, pronuncia uma frase oposta: “Melhor reinar no Inferno do que servir no Céu.”
Ainda que derrotado, Lúcifer cria uma nova dignidade para si, uma outra associada à soberania, à autonomia da vontade, mesmo em meio à ruína. No “seu” Inferno, Lúcifer ainda preserva subjetividade, orgulho, agência política. Agora ele é um Satã que continua “alguém”, sempre soberbo, capaz de transformar a queda em ato de afirmação.
Ao contrário de Aquiles, Lúcifer mantém a substância do orgulho, diferentemente do Inferno da “Odisseia”, onde não há grandeza metafísica na morte, mas apagamento eterno.
Aquiles concluiu que vida terrena possui um valor insubstituível. Mesmo miserável, mesmo servil, mesmo obscura, ela vale mais que a majestade morta. O corpo vivo, a luz do sol, a respiração — tudo isso é superior à glória que ele buscou. A morte não redime nem glorifica nada.
Lúcifer, ao contrário, se considera um herói celestial, ainda que derrotado. Por isso, o Inferno é seu espaço dramático, honroso e político. Para ele céu e Inferno são campos de disputa. O sujeito em vida persiste na vitória ou na derrota após a morte. A vontade continua operando. O conflito metafísico permanece.
Ao contrário de Aquiles, Lúcifer mantém sua ontologia rebelde, preferindo existir em oposição a Deus do que abdicar da própria soberania. Aquiles, por sua vez, ultrapassou a soberba e a sede de glória. O Inferno lhe ensinou amargamente que a glória heroica era uma compensação insuficiente diante da perda da vida, ou seja, reconheceu que a vida anônima de um trabalhador pobre vale mais que o reinado entre os mortos.Conclusão (?): Conforme se deduz da mitologia de Aquiles e Lúcifer, soberba e busca por glória acima de tudo não preenchem, nem justificam, o espaço-tempo existencial diante das cortes divinas. Vale mais é compreender que o sopro da existência é tal qual pluma leve ao vento da insignificância.
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