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Cláudio Guadalupe

O país da diversidade poética em Lêdo Ivo

Por Claudio Guadalupe · Colunista· 3 min de leitura
O país da diversidade poética em Lêdo Ivo

O Brasil é um país continental, com uma diversidade cultural, mas unificado pela língua portuguesa. Ao mesmo tempo, na língua, há a expressividade dos dialetos e das expressões regionais, constantes na literatura nacional.

Já trouxemos aqui poetas regionalistas da Amazônia (Thiago de Mello); do agreste e do sertão nordestino, como Castro Alves, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar e Jorge de Lima; do Pantanal, com Cora Coralina e Manoel de Barros; dos pampas, com Carlos Nejar, Augusto Meyer, Mário Quintana e Felipe Carpinejar; do Sudeste, os cariocas Vinícius de Moraes e Cecília Meireles e a fraternidade mineira, representada por Carlos Drummond de Andrade, Adélia Prado e Murilo Mendes, entre outros.

Quero suscitar em vocês, meus leitores, a curiosidade e a emoção ao conhecerem a poesia de um grande poeta de Alagoas, Lêdo Ivo (1924/2012). Integrante da Academia Brasileira de Letras, além de poeta, foi exemplar ensaísta, romancista, cronista, memorialista e tradutor, e teve produções no campo da literatura infantojuvenil. Foi agraciado com os prêmios Mário de Andrade e de Poesia Nacional, recebeu prêmios da Academia Brasileira de Letras e foi duas vezes ganhador do Prêmio Jabuti (pelos livros Finisterra e Rumor da Noite), além de outros prêmios nacionais e internacionais.

Sua poesia, em mais de 30 livros publicados, tem uma vivacidade emocional adquirida na elaboração de novas palavras, imagens e ideias, revelando, nessas construções poéticas e indagações metafísicas, belezas que só enriqueceram a nossa língua portuguesa.

O poeta foi integrante da terceira geração dos modernistas (Geração de 1945), e seu livro Acontecimento do Soneto é tido como um dos marcos da Geração de 45. O autor é reconhecido como um dos grandes sonetistas brasileiros, ainda que sob novas formas de expressão poética naquele gênero.

Dos livros Curral de Peixe (1995) e Rumor da Noite (2000), quero mostrar dois poemas que me chamam a atenção pela contemporaneidade de seus versos. Leiam abaixo a expressão poética de crítica social da realidade do Rio de Janeiro, onde morou.

O anoitecer na Cinelândia

A noite cai do céu na Cinelândia.

Meu cansaço rasteja na calçada

entre escarros e pontas de cigarro

e secretárias que saem do trabalho.

Na grande procissão crepuscular

O céu roxo me cobre como um pálio

e meu espanto mudo de espantalho

se casa ao plúmbeo espanto das estátuas.

Entre putas, pivetes e pilantras,

fanchonos, vagabundos e viados

respiro estupefato a maresia.

A noite triunfante enxota o dia

Troca a luz pela sombra, e só nos deixa

uma pomba arrulhando na sarjeta.

O outro poema tem um humor modernista, à lá Mário de Andrade, numa crítica ácida à realidade carioca.

Aviso aos urubus ameaçados de morte


Aviso aos poetas

que cantam as estações:

nas favelas do Brasil

não há primavera.

Em São Gonçalo,

na Grande Niterói,

não há cotovias

nem rouxinóis.

Só urubus

que disputam com os homens

o pão dos monturos.

Cuidado, urubus,

com as turbinas dos jatos

no céu azul.

Do seu livro ganhador do Prêmio Jabuti, em 1974, Finisterra, ele nos entrega surpresas em seus poemas amorosos, ligados à infância alagoana, com uma simplicidade emotiva que nos encanta. Vejamos!

Homenagem a um semáforo

Aquele semáforo junto ao mar, na minha infância.

Sempre amei as coisas que indicam ou significam algo tudo o que, em silêncio, é linguagem.

A duração do amor

Deitada sobre mim

és mais leve que a neve.

E um toque de clarim

torna a tarde mais breve.

Nascimento do dia

Entre os armazéns e silos

nasceu a aurora.

e seu leve rubor de inocência

Iluminou a fachada da alfândega

e a oscilante canoa dividida

entre o dia puro e a luz do candeeiro

E cuspindo no mar o pescador

guardou todas as sobras de uma noite de constelações e cargueiros

e colinas de cebolas e açúcar mascavo

e criaturas enlaçadas na treva

e sonhos suspiros e labirintos de enxofre

e crustáceos incrustados no casco

das dragas enferrujadas.


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