ADL: sodalício de grandes poetas divinopolitanos (Parte 1)

A Academia Divinopolitana de Letras – ADL completou 65 anos de existência em 2026. Hoje, na nossa coluna, a intenção é recuperar essa história por meio de poemas dos cofundadores da ADL.
As academias têm como fundamento histórico as organizações literárias e filosóficas da Grécia Antiga, quando grandes pensadores, como Sócrates, Platão, Aristóteles e outros, construíram seus pensamentos diante da realidade das coisas e da transcendência. Essas academias se consolidaram na Europa como centros de pesquisa, literatura e ciência, na Idade Moderna, chegando até o século XIX. Foram elas que deram formato às academias contemporâneas.
Em Divinópolis, a criação da ADL se deu pela unificação de esforços de literatos e amantes da cultura: José Maria Álvares da Silva Campos e Sebastião Benfica Milagre, aos quais se juntaram Jadir Vilela de Souza, Carlos Altivo, Gentil Ursino Valle, Rosenwald Hudson de Oliveira, Odilon Ferreira Santiago, Geraldo Moreira, Joaquim Coelho Filho, Petrônio Bax, José Carlos Pereira e Rosa de Freitas Souza.
De José Maria Álvares da Silva Campos (cadeira 03), na obra O Melhor das Antologias, da ADL, temos poemas bastante líricos de sua pena. Leiam os versos do poema abaixo, registrado na antologia organizada pelo ex-presidente da ADL, Célio Tavares.
Evocação (Excerto do poema “Mar, todas as águas te procuram”, 1962)
Um dia, pensativo, remexendo
Num velho armário, num canto abandonado,
Sensação esquisita fui sofrendo,
Aspirando esse aroma do passado.
Dum pacote, com fitas amarrado,
Retirei umas cartas e fui lendo...
E um retrato bonito, amarelado,
Sorriu, sorriu, na minha mão tremendo...
E todo aquele mundo era risonho!
Cartas falavam de porvir, de sonho,
Todas alegres, cheias de ilusão!
Foi aí que chorei, e com saudade!
Por sentir toda aquela realidade
Apenas viva na recordação!
Já Sebastião Benfica Milagre (1923-1992), o poeta-músico-escrivão, teve uma presença poética maior na comunidade literária de Divinópolis, seja pela efetiva participação no Movimento “Jornal Literário Agora” (1967/1969), na Noite da Poesia, seja como cronista no jornal A Semana. Sua poética contém sonetos, haicais e trovas, nos 20 livros publicados. Vamos ler alguns poemas deste poeta, da cadeira 02 da ADL.
Haicais
Confesso: inesquecíveis nossas noites de sexo
Trova
Ante uma noite estrelada
Adormecida e quieta
Todo homem, de alma elevada,
Sonha, medita e é poeta...
Opaco
Tudo perdido! Eu perdido,
meus filhos também perdidos
pelo mundo.
Numa total perda, talvez irreversível,
o céu distante, de opaco;
homens distantes, de opaco;
mulheres também de opaco.
O dia de noite é opaco,
não há sequer horizonte,
este horizonte de opaco.
Tudo perdido no opaco.
Outro cofundador da ADL foi Jadir Vilela de Souza (1925-2017), da cadeira 01. Foi bancário, advogado e já era reconhecido como grande poeta em 1961. Tornou-se membro da Academia Brasileira de Poesia Casa de Raul de Leoni. Jadir Vilela ainda teve uma vida abnegada em defesa da educação em Divinópolis, como diretor e professor universitário da Faced. Leiamos um poema muito declamado do autor!
Otimismo
Faça de conta
que você tem hoje
um sol bonito e convidativo.
Faça de conta
que hoje será um dia feliz,
talvez, o melhor de sua vida.
Faça de conta que
“muito obrigado”, “com licença” e “por favor”
sempre são pronunciados por você.
Faça de conta
que o sorriso é permanente
em seus lábios
e que seu rosto só mostra alegria.
Faça de conta
que você não tem problemas.
Faça de conta
que você tem coração bastante
para vencer os fracassos
e que só vitórias tem pela frente.
Faça de conta
que, a partir de hoje,
você será bem melhor
do que foi até ontem.
Se você puder fazer de conta
tudo isso,
você será o que todos esperam de alguém...
sem necessidade de fazer de conta.
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