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Cláudio Guadalupe

Pela democracia e contra o fascismo: os poetas cantam!

Por Claudio Guadalupe · Colunista· 3 min de leitura
Pela democracia e contra o fascismo: os poetas cantam!

Já trouxe e revelei alguns poetas que cantam a liberdade! Escrevi sobre poetas brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Thiago de Mello, Ferreira Gullar, Pedro Lyra, Moacyr Félix, Cida Pedrosa e Murilo Mendes, e sobre poetas da literatura internacional, como Bertolt Brecht, Maiakovski, García Lorca, Walt Whitman, Pablo Neruda e outros mais.

Para comemorar a derrota do fascismo pelo movimento democrático da juventude brasileira nas eleições presidenciais do último dia 25 de outubro, vou recuperar alguns poemas significativos de poetas brasileiros e estrangeiros que cantaram a democracia!

Vamos começar com um poeta brasileiro cujo poema, na época da Ditadura Militar, tornou-se um estandarte contra os fascistas! Todo mundo se lembra do poema No caminho, com Maiakóvski, do jornalista, editor, poeta, dramaturgo e pintor Eduardo Alves da Costa (1936). Leiamos!

No caminho, com Maiakóvski (fragmento)


Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho e nossa casa,

rouba-nos a luz e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.


Ainda na língua portuguesa, busco o poeta Miguel Torga (1907–1995), que foi também contista, memorialista, dramaturgo e romancista, laureado com o Prêmio Camões em 1989. Foi um poeta humanista, marcado pela rebeldia, e hoje cabe ler o poema abaixo!


Não passarão (fragmento)



Não desesperes, Mãe!

O último triunfo é interdito

Aos heróis que o não são.

Lembra-te do teu grito:

Não passarão!


Não passarão!

Só mesmo se parasse o coração

Que te bate no peito.

Só mesmo se pudesse haver sentido

Entre o sangue vertido

E o sonho desfeito.


Só mesmo se a raiz bebesse em lodo

De traição e de crime.

Só mesmo se não fosse o mundo todo

Que na tua tragédia se redime.

...


Não passarão!

Seja qual for a fúria da agressão,

As forças que te querem jugular

Não poderão passar

Sobre a dor infinita desse não

Que a terra inteira ouviu

E repetiu: Não passarão!


Já na língua italiana, teremos o poeta Salvatore Quasimodo (1901–1968), ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1959, que escreveu no período do fascismo e da guerra na Itália! Leiam!

Agosto, 1943


Em vão circula a poeira, 

pobre mão, a cidade está morta. 

Está morta: o último estrondo

foi ouvido no coração do Naviglio. E o rouxinol

caiu da antena, lá no alto do convento, 

onde cantava antes do pôr do sol. 

Não cavem poços nos pátios: 

os vivos já não têm sede. 

Não toquem nos mortos, 

tão vermelhos, tão inchados: 

deixem-nos na terra de suas casas: 

a cidade está morta, 

está morta.


E, por fim, sem me comparar nem de longe a esses mestres, quero contribuir com um poema meu, recente, sobre o processo eleitoral e o perigo da vitória do fascismo no Brasil. Simples, mas um poema de coração.


Povo calado (mas que fala)

                              

Povo calado

Não significa por dentro se calar

Mesmo silenciado

Continua oculto o pensar


Povo calado

Não é aceitar a injustiça traçada

Experimentado

Tem esperanças no dia vindo da vidraça 


Povo calado

Não significa enxergar só a desesperança

Olvidado

A voz nele é de uma outra substância


Povo calado

Não significa no acreditar ingênuo

Emocionado

Sabe a vida, dádiva do esplêndido


Povo calado

Não significa subjugar a verdade

Aprisionado

Busca-se ousado, a negada felicidade


Povo calado

Nunca significará ser o fraco oprimido

Amotinado (com seu voto)

A revolta nele será tecida fio a fio


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