Pela democracia e contra o fascismo: os poetas cantam!

Já trouxe e revelei alguns poetas que cantam a liberdade! Escrevi sobre poetas brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Thiago de Mello, Ferreira Gullar, Pedro Lyra, Moacyr Félix, Cida Pedrosa e Murilo Mendes, e sobre poetas da literatura internacional, como Bertolt Brecht, Maiakovski, García Lorca, Walt Whitman, Pablo Neruda e outros mais.
Para comemorar a derrota do fascismo pelo movimento democrático da juventude brasileira nas eleições presidenciais do último dia 25 de outubro, vou recuperar alguns poemas significativos de poetas brasileiros e estrangeiros que cantaram a democracia!
Vamos começar com um poeta brasileiro cujo poema, na época da Ditadura Militar, tornou-se um estandarte contra os fascistas! Todo mundo se lembra do poema No caminho, com Maiakóvski, do jornalista, editor, poeta, dramaturgo e pintor Eduardo Alves da Costa (1936). Leiamos!
No caminho, com Maiakóvski (fragmento)
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Ainda na língua portuguesa, busco o poeta Miguel Torga (1907–1995), que foi também contista, memorialista, dramaturgo e romancista, laureado com o Prêmio Camões em 1989. Foi um poeta humanista, marcado pela rebeldia, e hoje cabe ler o poema abaixo!
Não passarão (fragmento)
Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!
Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.
Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.
...
Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu: Não passarão!
Já na língua italiana, teremos o poeta Salvatore Quasimodo (1901–1968), ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1959, que escreveu no período do fascismo e da guerra na Itália! Leiam!
Agosto, 1943
Em vão circula a poeira,
pobre mão, a cidade está morta.
Está morta: o último estrondo
foi ouvido no coração do Naviglio. E o rouxinol
caiu da antena, lá no alto do convento,
onde cantava antes do pôr do sol.
Não cavem poços nos pátios:
os vivos já não têm sede.
Não toquem nos mortos,
tão vermelhos, tão inchados:
deixem-nos na terra de suas casas:
a cidade está morta,
está morta.
E, por fim, sem me comparar nem de longe a esses mestres, quero contribuir com um poema meu, recente, sobre o processo eleitoral e o perigo da vitória do fascismo no Brasil. Simples, mas um poema de coração.
Povo calado (mas que fala)
Povo calado
Não significa por dentro se calar
Mesmo silenciado
Continua oculto o pensar
Povo calado
Não é aceitar a injustiça traçada
Experimentado
Tem esperanças no dia vindo da vidraça
Povo calado
Não significa enxergar só a desesperança
Olvidado
A voz nele é de uma outra substância
Povo calado
Não significa no acreditar ingênuo
Emocionado
Sabe a vida, dádiva do esplêndido
Povo calado
Não significa subjugar a verdade
Aprisionado
Busca-se ousado, a negada felicidade
Povo calado
Nunca significará ser o fraco oprimido
Amotinado (com seu voto)
A revolta nele será tecida fio a fio
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