Poesia - A receita da simplicidade em afonso de castro!

Para ser um poeta da simplicidade, a receita pode ser esta: juntar inteligência jurídica ao brincante de blocos carnavalescos (do “Cordão do Tipo de Fora da Hora” ou Escola de Samba Unidos da Estiva”); unir o servidor público ao amante do patrimônio histórico e artístico; combinar o poeta, cronista e compositor popular com a militância política, vereador por 18 anos! E ainda ser um literato integrante do Coletivo Arteferia e organizador da Casa da Cultura e Memória Maravilhense. Deu certo no poeta Afonso de Castro Gonçalves.
O escritor nasceu na cidade-flor, Maravilhas. Formou-se em direito na nossa antiga Fadom, em Divinópolis, tornando-se um literato de referência em sua região.
Na nossa coluna, vamos retomar o projeto de apresentar novos poetas da cidade e região, para acompanharmos as suas produções. Apresento Afonso de Castro, a partir do livro “Estrelas no Quarador” (2000), onde há poemetos, haicais, acrósticos, dísticos, trovas e epitáfios. Afonso de Castro tem uma verve poética lírica, afetuosa, fundada numa personalidade integrada ao mundo literário e ao compromisso de intervir na realidade. Poeta sagaz, verseja do poema popular ao erudito, do simples ao discurso vigoroso contra o poder.
Amoroso
Quando estou feliz
não durmo.
Passo as noites em claro
em ti.
Quando estou feliz
surdo,
só tenho palavras
em mim
por ti.
Quando estou feliz,
cego,
não vejo senão
teus encantamentos (tantos)
E se estou feliz
vivo contigo sem medo.
Chorar não devo,
um poema
ainda escrevo.
Por outro lado, o poeta realiza a metapoesia, isto é, a análise do fazer poesia, em seus poemas. Leia a força deste!
Veia poética
Eu lido no eito
da palavra (a)feita
a sanha.
Rabisco, busco o elã
da alva manhã,
a manha
É sina sim,
garimpo de mim
a pedra.
O poema é o meio,
o poema é a via, a veia.
Da aranha a teia.
Ele ainda mantém um viés popular, em sua verve, nos haicais, nas trovas e poemetos, onde nos brinda com uma ironia tão necessária aos poetas. Vejamos!
Haicai
Azar ou desgosto
Por que? Vibra o agosto
Na flor do ipê!
Trova
Matemática ensina
Os números, o concreto
Não pode medir, menina
O tamanho do meu afeto.
Fruta
Dezembro.
Timunda, como sempre
Convoca os sobrinhos:
- Venham chupar fruta!
As jabuticabas pretinhas
No pé de galhos escorregadios.
O tempo urgia.
A doce explosão
No céu da boca.
A vida amadurecia.
Lendo o “Estrelas no Quarador”, fica em nós, leitores de poesia, um frescor de versos à la Carlos Drummond, Adélia Prado e Manuel Bandeira. E ele, neles, coloca uma pitada crítica e social que nos surpreende!
Ó Poesia, Ó Poetas
Boitempo. O poeta reclama
menino antigo,
a falta que ama.
A estrada – trem-de-ferro.
Quero o belo belo, Pasárgada,
Poesia da vida inteira.
E há poetas
(Sonho. Não sei quem sou)
Coração de ninguém.
Na vida inteira a falta,
Coração de ninguém.
Poesia que ama.
Tecer um verso Bandeira
Ser Pessoa na pessoa
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