Poesia de Vanguarda: o Concretismo e o Movimento Tendência de MG

A poesia contemporânea brasileira viveu um boom nos anos 1950 e 1960, com a presença de dois movimentos de vanguarda: o Concretismo e o Movimento Tendência. Ambos buscaram novos caminhos, com forte preocupação com a forma, a linguagem, e o compromisso com a realidade social.
Um momento fecundo desta busca, foi a realização pela Universidade Federal de Minas Gerais, da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda (Agosto/1963). Com a participação de poetas como Afonso Ávila, Affonso Romano de Sant’Anna, Leminski, Célio César Paduani, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Décio Pignatari, ao final do encontro, lançou-se um documento, com propostas e considerações sobre a poesia de vanguarda no Brasil.
Dentre as ideias, vamos rever alguns pontos, com exemplos concretos de uma poesia que deveria ter a função “crítica-criativa, em âmbito nacional e internacional”.
O primeiro princípio que defenderam, foi a necessidade de a poesia incorporar a novas linguagens e novas formas de comunicação, para com os diversos públicos, efetivando uma “participação emancipadora, social e política” dos leitores e a eficácia no que diz respeito à linguagem, tanto no plano estético quanto na comunicação. Vejamos num poema concretista, do poeta Augusto de Campos (1965), a intenção da comunicação direta.

Outro princípio foi a questão da função prática, no sentido da criação de novos métodos e meios de aplicação do texto, usando inclusive as diversas mídias (jornal, teatro, cinema, televisão etc) em confronto com a realidade social. Vejamos um exemplo de poema com esta função, do poeta Décio Pignatari.

Já na função Opção, buscava-se a “responsabilidade do poeta perante a sociedade de que faz parte”. Esta seria a função eminentemente política, no uso de novas linguagens, contribuindo para a transformação da realidade nacional. Leiamos Afonso Ávila, como poema do livro “O Homem ao Termo – Poesia Reunida.
IMPROVISO
A palavra justa
a mim não pertence,
busco-a nessa luta
em que não se vence,
trabalho diário
pelo amor de sempre.
Afonso Ávila (1928/2012)
A palavra triste
a mim não pertence,
perco-a numa lide
cujo ardor me vence,
trabalho diário
pelo amor de sempre.
A palavra louca
a mim não pertence,
bebo-a noutra boca
e ela me convence,
trabalho diário
pelo amor de sempre.
Outro poeta integrante do Movimento Tendência, foi o mineiro Affonso Romano de Sant’Anna (1937/2025). Leiamos um poema dele como exemplo do manejo de novas linguagens, no sentido de situar o poeta no mundo.
Debaixo de minha mesa
tem sempre um cão faminto
- que me alimenta a tristeza...
Debaixo de minha pele
alguém me olha esquisito
- pensando que sou ele.
Debaixo de minha escrita
há sangue em lugar de tinta
- e alguém calado que grita.
(Livro “A Catedral da Colônia, 1985)
Quero, por fim, destacar o poeta divinopolitano, que participou ativamente da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte (1963). Poeta existencialista, seus poemas são sobretudo filosóficos e muito líricos. Vamos conhecer dois poemas do nosso poeta-filósofo.
CAMINHO
caminho há 45 anos
e ainda não sei
por onde vou.
Minto-me e mentem para mim.
Os outros e nem ninguém
saber decifrar
o enigma desse percurso
SER
Ser homem é fisicamente
emoção
e espiritualidade
Onde começou a minha
desorganização.
CLÁUDIO GUADALUPE
Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA
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