O preço do estupro

Essa foi uma das expressões mais vistas ontem nas redes sociais. O motivo foi o anúncio de que a 21ª Seção do Tribunal de Justiça de Barcelona aceitou o pedido da defesa do ex-jogador, Daniel Alves, para liberdade provisória. Por maioria de votos, a corte decidiu deixar o jogador brasileiro fora da prisão enquanto os recursos são julgados, mediante fiança de 1 milhão de euros (R$ 5,45 milhões), entrega dos passaportes brasileiro e espanhol, e afastamento de 1km e incomunicabilidade com a vítima, além de não deixar a Espanha e se apresentar ao tribunal semanalmente. Daniel Alves, que cumpre prisão preventiva há 14 meses, foi condenado a quatro anos e meio de prisão por agressão sexual. Do lado de cá, a sensação foi exatamente essa: quanto vale um estupro? Tem como colocar preço em um crime tão bárbaro? De um lado, Daniel consegue uma brecha – que ainda cabe recurso – mas e do outro? Qual a brecha que a vítima terá? Qual o recurso ela possui depois do que lhe foi imposto naquela noite, em que acreditava que seria como outra qualquer?
A pergunta é: R$ 1 milhão de euros paga o que essa vítima viveu naquele momento de tortura? Vai simplesmente apagar de sua vida, de sua memória? A notícia veio pouco menos de 15 dias depois do Dia Internacional da Mulher, e mostra que todos aqueles discursos rasos, vazios, lindos de redes sociais ficam apenas lá. Mesmo os mais intensos, carregados de verdade, mostram a realidade e as dificuldades enfrentadas pelas mulheres, e estão longe de surtir efeito. Eles são apenas para serem vistos, aplaudidos, curtidos e comentados. Apenas isso. Aqui, na vida real, elas continuam com preço. E, pagando muito caro por isso. Na vida real, as mulheres deixam de fazer milhares de coisas pelo simples fato de serem mulheres. Andar na rua sozinha à noite, usar uma roupa mais curta, entrar em um elevador com um homem sem sentir medo, viajar sozinha, se divertir com as amigas em uma balada, simpática com um homem… Por aqui, elas pagam muito mais de R$ 1 milhão de euros para simplesmente existir.
Quanto vale ser mulher neste mundo que é um grande beco escuro? Para Daniel Alves e muitos outros parecidos. Caso tudo transcorra dentro do esperado por sua defesa, ele paga a fiança e pronto. A humanidade está pronta para esquecer, incluindo algumas mulheres que seguem firmes no discurso de culpar a vítima, a quem deveria defender pelo fato de ser do mesmo sexo. Provando mais uma vez, que, por enquanto, o mundo ainda não é para elas. Ele livre, ela condenada! Corajosa, admirável, mas condenada pelo preconceito e a sociedade. E, a verdade é que admiração nenhuma, discurso nenhum, muda o que ela viveu. Hoje, a Justiça de Barcelona escancarou para todos o simples fato de que ser uma mulher, do nascimento à morte é um risco constante. Todas são vítimas. Com sororidade ou não. Com empatia ou não. Sendo vítimas ou não. Absolutamente todas estão neste pacote chamado vida. Afinal, pode-se afirmar de olhos fechados, em algum momento você deixou de fazer alguma coisa só pelo fato de ser mulher. Não há escapatória.
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