O travesseiro é bom conselheiro

Terminamos o artigo do dia 29 do mês passado escrevendo que hoje comentaríamos este dito popular. Ele nos chama a não agir por impulso; é bom deitar a cabeça no travesseiro e pensar sobre o fato antes de tomar alguma atitude. Por certo, o pai deste provérbio tinha um tino para a filosofia.
Assim, estamos retomando o tema desejo X vontade. Se para o senso comum representam a mesma coisa, para a filosofia são conflitantes. Imaginem a seguinte situação: Transito agarrado, vem um motoqueiro em zig-zag e arrebenta o retrovisor do carro de Paulo. Ele abre o vidro para reclamar e acaba se desentendendo com o motoqueiro. A discussão é áspera com troca de insultos de ambos os lados. Ciente que a culpa é do outro, ao abrir o sinal, Paulo joga o carro sobre a moto e arranca em velocidade com o motoqueiro atirado ao chão.
Após este incidente Paulo vive um tormento que não lhe sai da cabeça. E se alguém anotou a placa de seu carro? Será que o motoqueiro machucou? E se for grave? O que pode advir deste incidente, uma vez que ele tem de acessar aquela rua todo dia?
Para a nossa reflexão, a atitude de Paulo é fruto de um desejo ou uma vontade de vingança?
Lembro que há 2500 anos Aristóteles recomendava submeter nossos desejos ao crivo da razão. Este seria o processo através do qual educamos nossos desejos com o objetivo de uma vida mais saudável. Aí começava a diferenciação entre desejo e vontade. Ou se preferirem, sobre o que separa o impulso do bom senso (aqui tratamos desejo como paixão e vontade como uma ação refletida).
O desejo é um sentimento meramente animal. Como nós, os animais também agem por desejo. Também têm desejo de poder, visto que os mais fortes arrocham os mais fracos. E não duvidem, animais têm sentimentos e carregam desejos. Só a razão nos diferencia deles. Então, é bom que a usemos.
Mas não é simples. O desejo é algo natural – nasce com a gente – e por isto é mais manifesto que a vontade. Ademais, como ele se impõe no imediato, evita a perda da oportunidade. A vontade é algo pensado, exige raciocínio e escolha, que pode determinar renúncia. Se o desejo é uma aventura, a vontade é uma certeza. Na aventura, o resultado só se mostra ao final. Na certeza, você age sabendo o que procura. O desejo é tentador. A vontade é racional.
Assim, não se pula do desejo para a vontade naturalmente. É necessário um querer permanente, criar o hábito de agir ciente da escolha feita. Fugir da falsa justificativa de que a culpa sempre está no outro. A razão clama tratar o outro como gostaria de ser tratado por ele. Entender que como resolvemos viver em sociedade é preciso agir pensando no coletivo. Da mesma forma que a atividade física faz bem para o corpo, o hábito de refletir sobre os nossos desejos faz bem para a mente. É um treinamento para toda a vida.
Sabemos que os desejos não se resumem às paixões desvairadas. Da mesma forma que as vontades refletidas nem sempre se voltam para a prática do bem. No entanto, externamos as nossas observações com o olhar voltado para o momento que vivemos. Nossa intenção é provocar uma reflexão sobre o que podemos fazer para melhorar o entorno que vivemos.
E você, o que pensa disto? Existe algum objetivo prático nesta reflexão? Porque será que nos assustamos todos os dias ao assistir os telejornais? O mundo caminha segundo regras racionais ou as paixões falam mais alto? Você está contente com este mundo ou gostaria de mudá-lo?
Se você achou interessante, acompanhe a nossa coluna aqui no Jornal Agora. Sempre nas 3ªs feiras, a cada 2 semanas.
Alberto Gigante Quadros
Médico / Pós graduado em Bioética pela Unesco
Graduando em Filosofia pela UFSJ
gigantequadros@gmail.com
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