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Dr. Alberto Gigante

Não cometa tamanha injustiça

Por Bruno
Não cometa tamanha injustiça

Pedro e Paulo se perdem em uma discussão inóspita, trocando ofensas sem nenhum motivo que justificasse. Ao final se ofendem mutuamente, chamando um ao outro de filho da puta. Eis uma ocorrência corriqueira que carrega uma grande injustiça. Afinal, que culpa tem a mãe de cada um para tornar-se a figura central na briga dos dois?

Arrisco dizer que provavelmente nenhuma das mães aprova o comportamento dos dois. Mas, mesmo assim, diariamente, nos quatro cantos da Terra, incontáveis discussões sem razão de ser terminam em desavenças e o final da história é o mesmo: aviltar o comportamento da mãe. Mas o que a filosofia tem com isso?

A filosofia nasceu para alertar o ser humano da sua condição de racionalidade. Não dava mais para ficar acreditando em explicações mitológicas, permeadas por comportamentos fantasiosos, para os quais os humanos já não enxergavam nenhuma lógica. Era preciso evoluir para algo mais inteligente. E coube a filosofia refletir sobre o comportamento humano, nos vários cenários que a vida nos apresenta diariamente.

É da natureza humana – quando nos faltam argumentos convincentes – transferir a culpa para o outro, mesmo quando as evidências não favorecem. E isto é feito de forma instantânea, desmedida e, via de regra, sem nenhum fundo de verdade. E é tão irracional que nem mesmo as nossas mães, a quem juramos amar, estão ilesas. 

Mas por que a mãe? E por que prostituta? Por que não o pai? E por que não prostituto, visto ser o homem quem mais comete adultério no casamento?  

A corda arrebenta do lado mais fraco. Olhando para a história, quando se busca qualificar direitos e deveres, a mulher é “o santo de casa que não faz milagre”. Mesmo na filosofia a mulher foi tratada com descaso. Aristóteles (século IV a.C.) – talvez quem mais contribuiu com a filosofia – não enxergava cidadania na pessoa da mulher. Seu mundo se resumia ao espaço de sua moradia, cuidando dos filhos e servindo ao marido, quando este assim requisitasse.  Da mesma forma foi na Roma antiga e em toda a Idade Média. O descaso só começou a mudar no final do século XVIII, com as reflexões dos filósofos iluministas que influenciaram a Revolução Francesa. Porém, estamos longe de comemorar o ideal.

Não é sem motivo que Pedro e Paulo, em sua discussão inóspita, não se contentam em botar a culpa na mãe mulher. Como se não bastasse, é preciso desqualificá-la como prostituta, de forma vil e irresponsável. E isto tem uma razão de ser em uma sociedade machista como a nossa. Se por um lado a prostituição masculina sempre tem uma justificativa atenuante, a traição feminina é o pior dos pecados e responsável por tudo de ruim que pode ter ocorrido na vida do casal.   

Por isso, precisamos aprender a não praticar tamanha injustiça. Quer seja contra a mulher – o que é a mais frequente – como contra qualquer semelhante. Precisamos ter a sabedoria de uma coruja que observa com paciência antes de alçar o vôo e ir à caça. Precisamos ter a memória de um elefante para lembrarmo-nos das atitudes que já praticamos; e o competência de uma onça pintada, para priorizar os atos que nos trouxeram benefícios. Os animais podem nos ensinar muito, porém a racionalidade somente nós a temos e é de bom grado que ela seja usada.    

Se achou interessante, acompanhe a nossa coluna aqui no Jornal Agora. Sempre nas 3ªs feiras, a cada 2 semanas.

Alberto Gigante Quadros

Médico / Pós graduado em Bioética pela Unesco

Graduando em Filosofia pela UFSJ

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