Filosofando sobre certos mitos

A tradição cria ditados populares e alguns se tornam verdades universais. “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”! Alguém duvida? Esta tradição foi levada tão a sério que chegou a cunhar uma máxima: “A voz do povo é a voz de Deus”. Mas algumas coisas andam mudando.
Infelizmente, nos últimos tempos, o povo tem brincado muito com a voz de Deus, principalmente após a criação da rede social. Muitos se apoderaram dela e falam para milhões e milhões de seguidores, vendendo gato por lebre. Alguns foram até condenados por isto, porém foragidos, continuam espalhando maldades. Não acredito que Deus avalize tal conduta e até penso que ele não se envolve com tais malefícios.
Hoje vamos filosofar sobre certas afirmações que se tornaram “verdades” e chamo você para esta reflexão. Eu cresci, ou melhor, envelheci ouvindo que a concorrência faz o custo de vida ficar mais baixo. Porém, nestes mais de 70 anos que carrego nas costas, nunca vi alguém agradecer porque o custo de vida baixou. Pelo contrário, tirando os membros dos governos, só ouço o povo reclamar da carestia.
Mas uma coisa eu assisti e me deixou triste. A concorrência está cada vez mais cruel. No começo, havia espaço para todo mundo. No bairro onde eu morava, havia pequenos comércios, com espaço para todo mundo comprar e vender. A concorrência foi chegando, tomando conta, engolindo alguns e empurrando outros para a periferia. Hoje, a cada momento, são menos concorrentes, que estão cada vez mais fortes. E o que aconteceu com os donos dos pequenos comércios, aqueles que não deram conta de concorrer? Aqueles, que na verdade, eram parte da tradição de nossa cidade?
Preocupa-me, mais ainda, quando vejo a imprensa denunciar que os grandes grupos combinam certo valor para as mercadorias e nenhum pode vender mais barato. Fechou o cerco, pois não existe mais concorrência. Calaram a voz de Deus.
Haverá quem diga que isto é saudosismo e que hoje não há lugar para certos romantismos. Ledo engano, pois no centro desta história está uma grande disputa filosófica, iniciada com o filósofo inglês John Locke, ainda no século XVII. Hoje, esta história se chama lei de mercado e quem puder mais engole o outro. Não tem choro nem vela.
Mas preciso aceitar que tenho saudade, sim. Antes, você entrava no pequeno comércio e era tratado como gente. O dono sabia seu nome, perguntava pela sua família e queria saber se estava tudo bem. Se não tinha dinheiro, você levava o que precisava mesmo assim. Hoje, quando entramos em um supermercado, somos apenas um número — um a mais ou um a menos — que não faz nenhuma diferença no balancete do final do mês. A única pergunta que interessa é: cartão, dinheiro ou pix?
A lei de mercado é assim. Trabalha com números e nela não cabem sentimentos. Não está preocupada com amizades, até porque sempre cria grandes inimigos. John Locke (1632 – 1704), o pai do liberalismo econômico, dizia que a sociedade precisava assinar um contrato social, criando regras para melhorar o convívio entre as pessoas e evitar os atritos comuns do estado de natureza*.
A filosofia não pretende torná-lo (a) saudosista ou realista. Ela quer que você reflita sobre o que está acontecendo e faça o seu juízo, sem aceitar calado o que querem te impor. Quem não tem pensamento próprio acaba se tornando propriedade de outros.
E você, o que acha disso tudo? Também tem saudade ou pensa que funciona assim mesmo? Ou seria melhor que todos tivessem acesso à riqueza e pudessem encher o papo de grão em grão, como afirma o ditado da galinha? Se achou interessante, acompanhe a nossa coluna aqui no Jornal Agora. Sempre nas 3ªs feiras, a cada 2 semanas.
* Segundo Tratado sobre o Governo Civil, John Locke, publicado em dezembro de 1689, na Inglaterra.
Alberto Gigante Quadros
Médico / pós-graduado em Bioética pela Unesco.
Graduando em Filosofia pela UFSJ
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