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Dr. Alberto Gigante

O medo da morte

Por Bruno
O medo da morte

Ao assumir a racionalidade o ser humano começou a sofrer com a ideia da finitude. Logo descobriu que uma hora iria morrer e isso passou a atormentá-lo. Sua inteligência foi criando soluções para os outros problemas, menos para a morte. E aí surgiu uma angústia e a dúvida de como enfrentar o dilema.

Para o filósofo contemporâneo francês André Comte-Sponville a morte é um tema cotidiano da filosofia e o debate sempre levava à duas opiniões: i) com a morte tudo acaba e ii) com a morte abre-se uma porta para a eternidade. 

Sócrates e Platão (séculos V e IV a.C), no amanhecer da filosofia, refletiram sobre a morte e demonstraram a convicção da imortalidade da alma e da sua relação com o conhecimento verdadeiro. Talvez por isso, Sócrates tenha demonstrado tamanha confiança para dialogar com a morte. Eis o trecho final de seu discurso perante a assembleia que o condenou: “Mas eis que chegou a hora de partir, eu para morrer, vós para viver. Qual de nós terá melhor sorte? Ninguém o sabe, somente Deus.” (Apologia de Sócrates – Platão)

Epicuro de Samos, outro filósofo da Grécia antiga, criou um ideário denominado epicurismo, que pautava a sua reflexão pelo racionalismo materialista (tudo tem uma razão e tudo é matéria). Para ele, corpo e alma formam uma unidade e com a morte findava a existência. Aquilo que morre deixa de existir e sua matéria incorpora-se a outra para formar um novo corpo. Não existe imortalidade da alma para os epicuristas e não devemos nos preocupar com a morte, porque “quando estamos vivos, ela ainda não está; quando ela está, nós já não estamos” – Epicuro, Grécia, 342 e 270 a.C. 

Isto muda com o cristianismo. Os primeiros filósofos da era cristã abraçaram os legados deixados pelo platonismo e coerentes com os dizeres da Bíblia proclamaram a necessidade da fé rumo à ressurreição. Aqueles que adorassem a Deus e seguissem os seus mandamentos - mesmo que sofrendo na Terra — ganhariam o reino do Céu, renasceriam para uma nova vida, onde reencontrariam os entes queridos e gozariam da eternidade. O medo da morte persistia, porém com a esperança de um renascer. E justiça seja feita, as ideias de Santo Agostinho (século IV) e de São Tomás de Aquino (século XIII) sobre a imortalidade da alma nos moldes do cristianismo até hoje encontram muitos adeptos no campo da filosofia.

Com o fim da Idade Média e a queda da influência da Igreja Católica sobre a produção do conhecimento, a polêmica volta a ganhar força no debate filosófico. Todos reafirmam a nossa fragilidade diante da finitude, a ponto de alguém afirmar que todos os nossos medos estão relacionados com o medo da morte. Permitam-me lembrar de Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, autor de uma frase que resume bem o nosso artigo de hoje: “Morrer é duro. Sempre senti que a única recompensa dos mortos é não morrer nunca mais.”

E você o que pensa disto tudo? Alguma vez já parou para pensar sobre a morte? Acredita na imortalidade da alma ou para você morreu, acabou? Se achou interessante, acompanhe a nossa coluna aqui no Jornal Agora. Sempre nas 3ªs feiras, a cada 2 semanas.

Alberto Gigante Quadros

  Médico / Pós graduado em Bioética pela Unesco

Graduando em Filosofia pela UFSJ

gigantequadros@gmail.com

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