Devagar com o andor que o santo é de barro

Alberto Gigante Quadros
Filho da imigrante escocesa Mary Anne MacLeod, tomou posse o polêmico Donald Trump para o seu segundo mandato como presidente dos estadunidenses. Muitos dos cargos importantes de seu governo estão nas mãos de pessoas também polêmicas. Então, é natural que suas primeiras medidas sejam polêmicas. Vamos nos ater ao caso dos imigrantes pela repercussão que está tendo entre os brasileiros.
Em que pese estarem em situação irregular, choca-nos a brutalidade como o governo dos Estados Unidos tratou a deportação de imigrantes brasileiros. E não podemos nos iludir, talvez seja só o começo. Podemos assistir as portas se fecharem para qualquer tipo de imigrante, principalmente aqueles de regiões inóspitas e refugiados de guerra, mesmo que estejam prestes a morrer de fome. Lembremos que no primeiro dia de seu governo, Trump assinou um decreto suspendendo as verbas destinadas às ações sociais. Segundo o senador pelo Estado de Nova Iorque, Chuck Schumer, este bloqueio compromete a assistência às vítimas dos desastres ambientais, a segurança, a saúde, a ajuda aos idosos e a distribuição de alimentos para pessoas vulneráveis.
A migração é um fato inerente à natureza humana. No Antigo Testamento, em Gênesis 2:14-12, Deus ordenou que Abraão abandonasse a sua moradia e guiasse o seu povo até a Terra Prometida (Canaã), onde já viviam os cananeus. Lá permaneceram por um tempo, porém foram obrigados a migrar para o Egito devido à fome. Migrar e receber imigrantes é parte da história da humanidade. Basta olhar a diversidade de raças existentes na composição das populações de todas as nações constituídas. Migra-se para dominar (colonização), por vontade própria (buscar uma nova vida) ou contra a própria vontade (escravidão). É assim desde muito tempo.
Apesar de ser parte da história da humanidade, de tempos em tempos a imigração se transforma em um grande problema e estamos vivendo um momento assim. Isso sempre acontece quando os governos abdicam dos compromissos sociais e priorizam os interesses econômicos. É quando a vida humana só tem sentido se gerar lucro e a miséria é vista com desprezo, principalmente por aqueles que contribuíram para que ela ocorra.
Para o professor emérito de filosofia da Universidade de Munique e ex-ministro da Alemanha Julian Nida-Rümelin, a questão é complexa e demanda uma reflexão profunda. Segundo ele, é difícil defender a imigração ilegal para um determinado país quando o que se busca é tão somente o ganho monetário. Da mesma forma, é desumana a conduta de quem fecha as portas para aqueles que passam fome quando findam as condições que garantiam o seu sustento. Toda nação tem suas regras e suas alfândegas precisam saber quem está entrando ou saindo. O governo precisa cuidar da sua economia, sem nunca esquecer que acima de tudo está o direito à vida com dignidade, independente de onde a pessoa tenha nascido.
O que se espera é o bom senso e a disposição do diálogo. Precisamos rever os nossos conceitos de progresso, pois a fome, os desastres climáticos, a escassez de água e a violência saíram do controle da governabilidade. Os que criaram e se beneficiaram da globalização agora querem se fechar em bolhas, se eximindo dos problemas que ela gerou. A tragédia da pandemia da Covid-19 mostrou que após a globalização a solução só existe no coletivo. Quem não entender isso vai morrer por um motivo banal, mesmo que esteja cercado de todos os recursos e com a conta bancária recheada de dinheiro.
Se achou interessante, acompanhe a nossa coluna aqui no Jornal Agora. Sempre nas 3ªs feiras, a cada 2 semanas.
Alberto Gigante Quadros
Médico / pós-graduado em Bioética pela Unesco
Graduando em Filosofia pela UFSJgigantequadros@gmail.com
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
