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Dr. Alberto Gigante

Racionalidade e coerência 

Por Bruno
Racionalidade e coerência 

Todos nós sabemos o que é certo ou errado quando julgamos a atitude dos outros. No entanto, quando somos parte da demanda, nossos desejos e paixões interferem em nosso raciocínio e nos desviamos do bom senso. Bom senso que todos dizem ter, mas que deixamos de praticar com certa frequência. Preocupado com o impacto negativo que isso trazia à filosofia, Aristóteles criou uma teoria sobre a lógica, com o intuito de dar coerência ao nosso raciocínio. 

Em seu tempo (século IV a.C.) existia uma corrente de pensamento na Grécia chamada de “Sofismo”, para quem tudo era relativo: suas “verdades” mudavam em função dos interesses que estavam defendendo. Aristóteles os chamava de oportunistas, pois não buscavam uma verdade real, acima dos interesses pessoais e independente do desejo de cada um. Entendendo a verdade como a coerência entre o pensamento e a realidade, a teoria de lógica criada pelo filósofo baseava-se em um embate argumentativo (premissas), como meio de dar validade ao raciocínio final (conclusão). Os conceitos da lógica aristotélica deram respaldo à filosofia por mais de 1.000 anos.

A frase mais emblemática de Aristóteles é: "O sábio nunca diz tudo o que pensa, mas sempre pensa tudo o que diz". Não que queiramos ser sábios, mas também não pretendemos estar no outro extremo. Por isso, devemos pensar antes de emitir opiniões, pois enquanto pensamos freamos nossos impulsos de desejo e paixão, que muito nos levam a ficar incoerentes. 

É óbvio que coerência não representa ter uma opinião que nunca muda. Pelo contrário, coerente é aquele que aplica a sua concepção de vida aos fatos a que ela é exposta. Se a vida é dinâmica e surge uma novidade, seus conceitos precisam passar a admiti-la e acrescentá-la ao seu sistema de raciocínio. Isto representa dizer que se condeno José por matar Pedro, posso mudar de opinião ao descobrir que o fato se deu em legítima defesa. Isso precisa nos alertar sobre o risco de julgar o outro. Pense com calma e antes de concluir coloque-se no lugar dele. Se isto lhe trouxe algum incômodo, é possível que você ainda não esteja preparado para julgá-lo.

Sem coerência não dá!

Infelizmente, a coerência não tem sido a tônica de nossos dias. Vamos a alguns fatos: todos os partidos políticos falam em bem comum acima do interesse próprio. Mas quando olhamos para o comportamento do político eleito para defender o eleitor, acabamos concluindo que a maioria age em desacordo. E isso é muito ruim, pois cria descrédito e desinteresse com a política e é aí que o mal intencionado acaba decidindo tudo por nós. 

Quando assistimos grandiosos espetáculos midiáticos, através dos quais muitos religiosos afirmam estar falando em nome de Deus, somos levados a suspeitar do real interesse destas pessoas. Ainda mais quando usam a fé dos outros em favor de seus interesses na política e na economia. Não é isso que Deus quer nos ensinar.

Quando a imprensa denuncia juízes emitindo sentenças em troca de propinas, somos levados a pensar que não existe justiça entre nós, o que não é verdade. Porém, tais atitudes fomentam o descrédito e servem de argumento para muitos agirem de má fé. 

Que me desculpe Rui Barbosa, quando disse que de “tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”. Sentir vergonha e omitir não ajuda em nada.  Pelo contrário, é aceitar que os incoerentes continuem tomando conta. O que a filosofia espera é que sejamos racionais e coerentes. É o tributo que devemos pagar a Aristóteles, Tomás de Aquino, Descartes, Kant, Hannah Arendt, Simone de Beauvoir  e tanto(a)s outro(a)s filósofo(a)s que dedicaram a vida em busca da verdade.

Se achou interessante, acompanhe a nossa coluna aqui no Jornal Agora. Sempre nas 3ªs feiras, a cada 2 semanas.

Alberto Gigante Quadros

Médico / pós-graduado em Bioética pela Unesco

Graduando em Filosofia pela UFSJ

gigantequadros@gmail.com 

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