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Dr. Alberto Gigante

Filósofo e médico

Por Bruno
Filósofo e médico

Alberto Gigante Quadros

Nos séculos V e IV a.C., quando da origem da filosofia, Platão e Aristóteles escreveram algumas peças que se apossaram da agenda filosófica até os nossos dias. Os conceitos de justiça, do bem e da felicidade foram delineados com tamanha sabedoria que qualquer outro autor interessado em dialogar com este tema terá que, concordando ou não, mencionar o que foi registrado por eles e, só então, emitir o seu posicionamento. Em síntese, não há como falar em filosofia sem levar em conta o legado de Platão e Aristóteles.

Ambos julgaram necessário fazer menção a outro filósofo que, da mesma forma, assentou seu nome na história e até hoje é referenciado por aquilo que produziu. Trata-se de Hipócrates, nascido por volta do ano 460 a.C., na ilha grega de Cós e que acabaria sendo reconhecido como o “pai da medicina ocidental”. Não há como escrever a história da medicina sem iniciar por Hipócrates.

Em seu tempo a medicina não era uma ciência própria. Era um capítulo da filosofia e estava contaminada por crenças e superstições. Hipócrates aplicou os métodos praticados na filosofia, iniciando a criação de uma base científica para a medicina. No enfrentamento às doenças que surgiam, sentado à beira do leito e dialogando com os doentes, provocava uma investigação empírica, detalhando tudo que acontecia. Assim, criou um banco de sintomas e sinais vitais que foram sistematizados e agrupados, possibilitando identificar determinados diagnósticos e os seus prognósticos. Estava criada a semiologia e com ela a tradição médica criou uma máxima que perdurou até o século passado: “A clínica é soberana”. Significa dizer que a conclusão construída através da boa técnica e da arte de praticar a medicina está acima de resultados de exames complementares.

Em sua época existia a superstição taxando o doente como uma pessoa má e a doença como o tributo decorrente de algum deslize praticado. Contestou esta ideia, argumentando que a doença é um estado patológico possível de ser tratado. Para ele, a doença era decorrente de fatores naturais – de tudo que nos cerca – estando todos sujeitos a ela.

Em uma época onde os recursos terapêuticos eram mesquinhos, Hipócrates buscou tratamentos na natureza. A dieta, a hidratação, o sol, o clima, o repouso e a atividade física, entre outros, seriam fatores positivos ou negativos, devendo ser avaliados a cada caso, antes de serem prescritos ao doente. 

Introduziu o conceito de doença física e mental, influenciada também por fatores sociais. Ousou dizer, no século V a.C., que a saúde da população tinha relacionamento com a política, motivo pelo qual o Estado deveria se preocupar com ela. Não via o doente como um ser isolado, mas inserido em um contexto amplo que é a saúde coletiva.

Foi também o pai da ética médica e o seu primeiro aforismo* mostra isto: “A vida é curta, a arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganosa e o julgamento difícil. O médico deve fazer não apenas o que é conveniente para o doente, mas também com que o próprio doente, os assistentes, e as circunstâncias exteriores concorram para isto”. A primeira frase alerta para as dificuldades da técnica e da arte médica, o que exige do profissional muito empenho e humildade, pois a experiência é enganosa. O início da segunda frase determina que a preocupação primeira do médico seja com o seu paciente, respeitando sua autonomia e consciente do que é possível e aconselhável fazer; nunca vender falsas ilusões. Por fim, dita que o médico – bem como a equipe de saúde que o acompanha – deve ler com expertise o desejo do doente e comprometer-se com a sua realização.

Se achou interessante, acompanhe a nossa coluna aqui no Jornal Agora. Sempre nas 3ªs feiras, a cada 2 semanas.

* Hipócrates, Aforismos, Editora Unifesp, 2010, pág. 29.  

Alberto Gigante Quadros

  Médico / pós-graduado em Bioética pela Unesco 

Graduando em Filosofia pela UFSJ

gigantequadros@gmail.com 

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