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Dr. Alberto Gigante

Será que existe destino?

Por Bruno
Será que existe destino?

A mitologia grega possui um belo capítulo sobre este assunto. Ela fala de três divindades conhecidas como Moiras ou Fiandeiras do Destino, responsáveis pelo acaso dos mortais e até mesmo dos deuses. Chamadas de fiandeiras porque determinavam o comprimento do fio com o qual iriam tecer a malha da vida de cada um. Elas também escolhiam o momento de romper o fio, pondo fim a uma existência – decisão para a qual não existia apelação, tanto para os humanos quanto para as divindades.

Além da mitologia vamos mencionar o que a Bíblia registra sobre o destino. Nela está escrito que Deus tem um propósito para todos, porém dando liberdade para cada um escolher as ações que irá adotar durante o caminho que Ele traçou. Daí surge o conceito de “Livre Arbítrio”, cunhado pelo bispo Agostinho de Hipona (354 a 430 d.C.), que irá influenciar a filosofia até os dias de hoje.

Com o surgimento da filosofia este foi um debate que nunca saiu da pauta, mas agora sob os fundamentos da razão. Na Grécia antiga, os estóicos definiram conceitos que ainda hoje são parâmetros de conduta para muitos (Zenão de Cítio – 333 a 263 a.C.). Para o estoicismo a nossa realidade está fundada num princípio racional, sendo o universo regido por uma ordem harmonicamente preestabelecida. Por isto, tudo está previamente definido e segue um rito determinado por esta razão. Este é o destino: aceitar o que está estabelecido, viver com austeridade e respeitar o dever da boa moral é o que nos conduz à felicidade.

Porém a evolução da ciência e a cosmologia mostraram que a harmonia preestabelecida do universo defendida por Pitágoras (570 – 490 a.C.) não existe, o que arranha a lógica criada pelos estóicos. E isto, naturalmente, motivou novos debates sobre o destino no âmbito da filosofia.

Ainda no campo da espiritualidade, a filosofia budista também se preocupou com a questão do destino. Ela argumenta que as nossas ações e até mesmo os nossos pensamentos têm a capacidade de moldar o nosso destino. Para os budistas, agir de forma virtuosa, demonstrando compaixão, bondade e sabedoria, ajuda a construir uma vida melhor. Eles se apegam ao princípio da causalidade, ou seja, cada um colhe aquilo que semeia.

Por fim, vamos trazer a discussão para os nossos dias, reproduzindo o pensamento do filósofo alemão Max Weber (1864 – 1920). Para a filosofia de hoje, o conceito de destino corresponde àquilo que enxergamos como o futuro. Apesar de dizer que nada é predeterminado e a ação dos indivíduos em sociedade pode modificar a realidade do entorno, Weber mostrava-se cético. Para ele, a sociedade moderna apresenta um grau crescente de racionalização e isso causa certa alienação nas pessoas. A isto o filósofo chamou de "desencantamento do mundo" – para tudo existe uma explicação racional que desestimula o indivíduo a questionar o porquê das coisas.

Para Weber, outro fator determinante da sociedade moderna é a burocratização. Ele a descreve como um sistema de normas que domina as instituições sociais, na busca da eficiência e da previsibilidade. Como este sistema está revestido de poder legal, acaba criando uma “jaula de ferro” que rouba do indivíduo a sua individualidade. Dada a hierarquia instituída a esta burocracia, resta ao sujeito entrar na fila e seguir o curso.

E para você, qual destas definições de destino é coerente? A burocracia te aborrece ou você entende que ela é necessária? Será que o excesso de razão acaba mesmo tirando o encanto do mundo? O excesso de razão pode banalizar os nossos sentimentos? Se achou interessante, acompanhe a nossa coluna aqui no Jornal Agora. Sempre nas 3ªs feiras, a cada 2 semanas.

①ECONOMIA E SOCIEDADE - VOL. II / Max Weber / Editora EDU – UNB / 2022  

Alberto Gigante Quadros

Médico / pós-graduado em Bioética pela Unesco

Graduando em Filosofia pela UFSJ

gigantequadros@gmail.com

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