Quantas mais?

Não foi um caso isolado. Não foi um surto imprevisível. Foram dois crimes separados por um dia, por quilômetros de distância, mas unidos pela mesma lógica brutal: a violência contra a mulher que continua matando, ferindo e destruindo famílias diante de todos nós. O que aconteceu em Mariana e em São Paulo não é exceção. É sintoma.
Em Mariana, uma jovem de 25 anos e sua filha de apenas dois foram assassinadas dentro de casa, abraçadas, no quintal onde deveriam estar seguras. Em São Paulo, uma mulher foi morta pelo ex-companheiro, enquanto a filha pequena permaneceu no berço ao lado do corpo da mãe, também com sinais de violência. Em ambos os casos, o agressor fazia parte da vida da vítima. Em ambos, o cenário era doméstico. Em ambos, o desfecho foi extremo.
A pergunta que se impõe é inevitável: onde estamos falhando como sociedade?
Os números ajudam a dimensionar o tamanho do problema, mas não dão conta da dor. Em 2025, o Brasil registrou 1.470 feminicídios, o maior número da série histórica. Quatro mulheres mortas por dia pelo simples fato de serem mulheres. Em dez anos, mais de 13 mil vidas interrompidas. Minas Gerais está entre os estados com mais registros. Em Divinópolis, apenas no último ano, foram quatro feminicídios consumados e seis tentativas. Não são estatísticas distantes. São histórias que atravessam bairros, famílias e rotinas conhecidas.
Há um padrão que insiste em se repetir. Relações marcadas por controle, ciúmes, ameaças, agressões prévias, pedidos de ajuda que nem sempre encontram resposta eficaz. Muitas vítimas procuram a polícia, registram boletins, solicitam medidas protetivas. Ainda assim, continuam expostas. O Estado chega tarde demais. A proteção falha. A violência escala.
Especialistas alertam que os números ainda são subestimados. Muitos feminicídios seguem sendo registrados como homicídios comuns, invisibilizando o ódio de gênero que está na raiz desses crimes. Paralelamente, crescem outros tipos de violência contra a mulher, perseguições, espancamentos, estrangulamentos, sinais claros de que o risco já estava anunciado. Nada disso acontece de repente.
É preciso ir além da indignação momentânea. Não basta reagir apenas quando o pior acontece. A violência contra a mulher não começa no facão, na faca ou na arma. Ela começa no controle, no medo, no isolamento, na naturalização do abuso. E se perpetua quando a sociedade relativiza, quando o poder público falha, quando a rede de proteção não funciona como deveria.
Este editorial não é apenas um registro de horror. É um alerta. Um pedido de reflexão urgente. Enquanto casos como esses continuarem a se repetir, enquanto crianças crescerem cercadas pela violência, enquanto mulheres forem mortas dentro de casa, não será possível falar em avanço civilizatório.
A pergunta final não é apenas onde iremos parar. É o que estamos dispostos a fazer para interromper esse ciclo. Porque cada silêncio, cada omissão e cada demora também constroem o cenário onde essas tragédias se tornam possíveis.
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