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Domingos Sávio Calixto

Robinson Crusoé, um traficante na Bahia

Por Portal Agora
Robinson Crusoé, um traficante na Bahia

Robinson Crusoé, um traficante na Bahia

 

Quando se fala da obra “Robinson Crusoé” (1719), de Daniel Dafoe, vem à tona toda a pujança de um “clássico” da literatura inglesa, lido, relido e citado em salas acadêmicas do ocidente que buscam uma reflexão sobre individualismo, vida em sociedade, construção da  norma e desobediência à ela. Afinal, quem nunca ouviu falar de um náufrago em uma ilha dando ordens a um indígena batizado “Sexta-feira”?

A questão pode remontar a debates envolvendo individualismo, racionalismo, humanismo, empreendedorismo e até capitalismo, mas o foco verdadeiramente que importa é ocultado, principalmente pela facilidade com a qual se critica Monteiro Lobato: a personagem título é sujeito mau caráter, racista, traficante de índios e escravos e que vai fazer fortuna na Bahia. Sim, Bahia, aquela de “todos os Santos”. Aliás, o autor também era racista e favorável ao tráfico de escravos.

Voltando ao livro, como esse sujeito – Crusoé - foi parar na Bahia?

Ora, era um inglês mimado – pleonasmo? – o qual se dá a constantes embates com o pai e, por conta disto, resolve sair de casa (típico), tornar-se marinheiro, e ir para Londres a bordo de um navio tentar nova vida lá nos danos de 1657. 

Na viagem, depois de tempestades marítimas e outros percalços, o sujeito vai parar em Marrocos, como escravo, onde consegue fugir depois de 2 anos em um barco, acompanhado de outro chamado Xury. Não é que Crusoé obriga o tal Xury a servir-lhe com escravo, mediante ameaça de morte? Com receio, o coitado aceitou.

Em mar aberto foram resgatados por um navio “cristão” português que, depois de passar pela ilha da Madeira, acabou por  deixá-los na...Bahia, Brasil.

É na Bahia que Crusoé vende seu "escravo" Xury,  passa a investir no comércio negreiro e rapidamente se vê alinhado com “empresas” locais, tornando-se um rico traficante de escravos. 

Como era ganancioso e mau caráter até não ter mais poder, aceita ganhar mais dinheiro ao liderar uma expedição de caça a escravos na costa da África. A tal expedição passa por Fernando de Noronha e, logo depois, outra tempestade marítima na existência da personagem. 

Desta vez Crusoé vai ser levado à uma ilha da região do Caribe, nas proximidades da foz do rio Orinoco, onde é a Venezuela atual.

É ali que ele vai permanecer por mais 28 anos, até salvar um indígena de uma execução, fazê-lo por escravo e aprendiz, dando-lhe o nome de “Sexta-feira”.

(...)

Ora, como uma obra dessas, e tantas outras, passa pelo estudo educacional sem que tais abordagens críticas sejam levantadas? 

Como entender – a partir deste exemplo – que a alienação quanto à origem escravagista do país, seus colonizadores, seus violadores, usurpadores, não tenham sequer uma menção de desagravo devidamente registrada?

Ao final, o flagelo histórico do povo brasileiro parece permanentemente preso à uma maldição, algo feito um looping infinito: o espoliador ressurge sempre, explora, rouba, mata e se vai. Ressurge, explora, rouba, mata e vai embora, para depois retornar.

Parece mesmo que “tempestades marítimas” insistem em trazer outros “Crusoés” até nós, só que nem tão perdidos.



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