“Será que a inteligência artificial substituirá os advogados?”

Essa talvez seja a pergunta mais repetida quando se discute tecnologia no Direito. Embora compreensível, ela conduz a reflexão ao lugar errado. A questão mais útil é compreender como a advocacia será exercida em um ambiente no qual documentos podem ser analisados rapidamente, rotinas automatizadas e informações dispersas transformadas em indicadores para decisões estratégicas.
A transformação digital dos escritórios não começa com a contratação de uma ferramenta. Começa com a revisão do modo de trabalhar.
Digitalizar documentos, trocar arquivos por e-mail e realizar reuniões virtuais são avanços importantes, mas não bastam. Um processo desorganizado continua desorganizado em uma plataforma moderna.
A verdadeira transformação ocorre quando contratos, processos, prazos, documentos e conhecimento passam a ser tratados como dados organizados e ativos estratégicos. Caixas de entrada, pastas individuais e controles paralelos dão lugar a fluxos definidos, responsabilidades claras, indicadores, automações e supervisão.
Nesse cenário, diferentes tecnologias ocupam funções complementares.
O Codex, da OpenAI, pode apoiar a programação e a automação: desenvolver sistemas internos, organizar bases, validar informações, consolidar planilhas e transformar tarefas repetitivas em fluxos controlados.
O Claude, da Anthropic, pode auxiliar na estruturação da gestão e na criação de protótipos de plataformas, fluxos de governança, painéis financeiros e dashboards. Mas o protótipo não é sistema corporativo: exige segurança, dados confiáveis e responsáveis definidos.
O Microsoft 365 Copilot atua no ambiente em que boa parte da advocacia já trabalha. No Word, Outlook, Excel, PowerPoint e Teams, pode apoiar rascunhos, sínteses, reescritas e a adaptação da linguagem jurídica a diferentes públicos. Uma análise técnica pode originar uma opinião legal ou uma comunicação objetiva para diretoria e clientes. A redação pode ser apoiada; a estratégia, a conclusão e a responsabilidade continuam sendo do advogado.
O NotebookLM, do Google, permite organizar livros, jurisprudência, peças e artigos em um conjunto delimitado de fontes. Pode auxiliar na comparação de argumentos e simplificação de materiais. Resumir, porém, não é interpretar definitivamente: particularidades processuais exigem leitura da fonte original.
O Jus Ia contribui para a pesquisa de jurisprudência, legislação e informações processuais públicas. Também permite compreender o contexto profissional de clientes, partes contrárias, advogados e órgãos julgadores. A finalidade deve ser legítima: identificar precedentes, histórico público e padrões argumentativos, e não produzir perfis pessoais. Informações relevantes devem ser confirmadas nos repositórios oficiais.
O objetivo não é encontrar uma ferramenta que faça tudo, mas construir uma arquitetura na qual cada solução tenha função clara e se conecte a um processo governado. Isso também envolve assinatura eletrônica, automação documental, atendimento, gestão financeira, segurança cibernética e análise de dados.
Essa evolução exige cuidado, pois a advocacia trabalha com informações confidenciais, estratégias processuais, dados pessoais e documentos sensíveis. A Recomendação do Conselho Federal da OAB orienta o uso ético da IA generativa, por exemplo, admite ferramentas tecnológicas para aumentar a eficiência, desde que não suprimam o poder decisório e a responsabilidade do advogado.
A transformação digital não diminui a importância do advogado. Ela desloca sua atuação para aquilo que exige maior capacidade humana: julgamento, negociação, estratégia, responsabilidade, criatividade e compreensão do contexto.
No fim, não é a ferramenta que transforma a advocacia, mas a forma como escolhemos trabalhar com ela. A integração de diferentes tecnologias ao cotidiano jurídico, organizando processos, acelerando rotinas, ampliando a capacidade de análise e impulsionando a melhoria contínua, é o que permite deixar para trás uma advocacia limitada ao "papel" e construir uma advocacia verdadeiramente digital, estratégica e de alta performance. A tecnologia não retira o advogado do centro da decisão; amplia seu alcance. E talvez esse seja o verdadeiro futuro da advocacia: menos tempo operacional, mais estratégia e mais espaço para aquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir: a humanidade do advogado.
Em vez de perguntar se a inteligência artificial substituirá os advogados, talvez devamos perguntar: que parte do nosso trabalho pode ser organizada pela tecnologia para que tenhamos mais tempo para exercer aquilo que somente uma advocacia verdadeiramente humana pode oferecer?
Túlio Tomazini de O. Santos – Advogado Corporativo, Especialista em Direito Empresarial, DPO, Compliance, LLM's, M&As e Governança Corporativa, atual Presidente da Comissão de Direito Empresarial da 48ª Subseção da OAB/MG. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/tuliotomazini/
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