Suficientemente boa: o convite do ‘Outubro Rosa’ para cuidar de si

Outubro Rosa é sempre um lembrete de que precisamos cuidar e entre mulheres, esse cuidado ganha força coletiva: quando uma se escuta, outras se sentem autorizadas a fazer o mesmo. Quando o autocuidado é compartilhado, floresce em rede.
Mas, entre consultas e campanhas, há um outro tipo de cuidado que raramente ganha manchete: o cuidado emocional entre mulheres. Aquele que se manifesta em vínculos, em escuta, em presença e que muitas vezes se perde entre as pressas, as comparações e o peso de ser forte o tempo todo.
As estatísticas nacionais mostram que o cuidado emocional ainda é um desafio: quase 45% das mulheres brasileiras relataram diagnóstico de ansiedade ou depressão, e a ansiedade está presente no cotidiano de 6 em cada 10 mulheres. A depressão é relatada quase 3 vezes mais por mulheres do que por homens. A ausência de rede de apoio aumenta em até 60% o risco de adoecimento emocional. Esses números revelam que a sobrecarga emocional ainda é uma realidade que pede atenção, além do impacto do acúmulo de papéis e da cultura da comparação, silenciosa, mas persistente.
Em todas as gerações, as mulheres aprenderam a cuidar. E no meio desse aprendizado, seguimos tentando conciliar tudo (trabalho, a casa, os afetos, o corpo, a mente) sem perceber que ninguém consegue cuidar bem se está exausta.
Cuidar de si, portanto, é também um ato de resistência e de autoamor. Winnicott nos ensinou sobre a mãe suficientemente boa como aquela que não é perfeita, mas é presente o bastante para sustentar o crescimento do outro e de si. Esse conceito, quando transposto para o feminino contemporâneo, é um convite à autocompaixão: cuidar de si o bastante, não tudo.
Estar inteira, ainda que imperfeita. Entre tantas pressões, ser competente, bela, produtiva, forte, o “suficientemente bom” é um gesto de resistência à lógica da exaustão. É permitir-se ser mulher real, com pausas, limites e vulnerabilidades, sem que isso signifique falhar. Talvez o verdadeiro autocuidado comece quando deixamos de buscar o ideal e passamos a habitar o possível.
Mas há um caminho que torna esse cuidado mais possível: o vínculo entre mulheres. Estudos mostram que o suporte social reduz sintomas de depressão, ansiedade e estresse, funcionando como fator protetor da saúde mental.
Ou seja, o que nos salva não é só o que fazemos sozinhas, mas o que construímos juntas. Quando transformamos a comparação em cooperação, criamos uma força que sustenta. Quando trocamos o olhar de crítica por admiração, abrimos espaço para florescer ao lado da outra. E quando paramos para perguntar “como você está?”, criamos um tipo de cuidado coletivo que, mesmo simples, é profundamente curador.
Meu convite para você neste “Outubro Rosa” é esse:
que o autoexame também seja de alma,
que a prevenção inclua pausas, perdão, vínculos e escuta,
que você se inclua na agenda como um compromisso com a vida.
Cuidar de si é bonito e revolucionário. O corpo carrega nosso sonho e testemunha nossas lutas e conquistas.
Cuidar de si entre mulheres é o que mantém o mundo de pé. Porque quando uma mulher se levanta, a humanidade se levanta.
Quem sabe possamos nos permitir pequenos gestos constroem vínculos e fortalecem o cuidado. Algumas ações possíveis:
· Crie um círculo de escuta: encontros presenciais ou virtuais entre amigas, colegas ou familiares, para compartilhar emoções e recomeços.
· Pratique a admiração ativa: substitua comparações por gestos de reconhecimento; celebre conquistas, inclusive as pequenas.
· Monte um pacto de autocuidado coletivo: um lembrete semanal para cuidar de corpo e mente juntas (uma caminhada, uma pausa, um chá ou uma oração em comum).
Outubro Rosa é mais do que prevenção física. É um convite a cultivar o cuidado de dentro para fora, com atenção, gentileza e presença, suficientes, como nós.
Quem sabe você finalize esse mês convidando uma amiga para um café, chá ou vinho na cozinha. Um convite simples, cheio de presença, para ouvir, partilhar e simplesmente estar. Às vezes, um abraço se transforma em letrinhas eletrônicas dizendo: ‘precisamos conversar’. E nesse gesto singelo nasce o cuidado que fortalece, que acolhe, que conecta.
Respira, é humano!
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