Vítima, Vilã ou Juíza? O Caso Odete Roitman 2025

Em 2025, a pergunta voltou a ecoar pelas telas e pelas redes: “Quem matou Odete Roitman”? Mais de três décadas depois do enigma que parou o Brasil, a personagem renasceu, agora vivida por Débora Bloch, e trouxe de volta o mesmo fascínio e a mesma aversão que sempre provocou. Odete continua poderosa, refinada, arrogante, mas também mais fria, estratégica, e envolta em novos segredos. O filho, antes dado como morto, reaparece ferido e escondido; o neto, tratado com indiferença, é apenas mais uma peça em seu tabuleiro. A nova Odete é menos caricata e mais real, e talvez por isso, mais perturbadora.
O remake de Vale Tudo não apenas reviveu uma vilã clássica, mas também atualizou a metáfora que ela representa: o poder de julgar e ser julgado. Em um mundo em que as telas são vitrines de virtude e arenas de linchamento, a figura de Odete se encaixa com perfeição. Ela é a imagem da mulher poderosa que desperta admiração e ódio na mesma medida. E, como toda figura pública de nossos tempos, seria condenada em trending topics muito antes de qualquer crime ser provado.
O fenômeno da “justiça paralela” não nasceu com as redes sociais, mas nelas ganhou um palco global. Hoje, o tribunal da internet tem suas próprias leis: o réu é quem viraliza; a prova é o recorte do vídeo; e a sentença vem em forma de comentários e cancelamentos. A velocidade da indignação substitui a prudência da análise, e o julgamento coletivo se torna espetáculo. Se, na ficção, a morte de Odete 2025 for fruto de uma trama complexa, na realidade digital bastam segundos para que a multidão decida quem deve pagar, e com que reputação.
O Direito, em sua essência, é o oposto dessa pressa. Ele existe para conter o impulso de julgar com base em emoções e aparências. O contraditório, a ampla defesa e o devido processo legal são conquistas que protegem a verdade do ruído das massas. No entanto, em tempos de imediatismo, esses princípios parecem lentos, antiquados, quase incômodos. Muitos se esquecem de que a lentidão do Direito é o preço da justiça, e que a precipitação é a porta aberta para a injustiça.
A sociedade contemporânea confunde justiça com vingança e verdade com consenso. A opinião pública transformou-se em juíza suprema, e o linchamento simbólico substituiu o debate racional. De cancelamentos a campanhas de difamação, vivemos uma era em que a reputação é o corpo que se arrasta pela cena do crime moral. Odete 2025, com sua postura calculada e sua frieza quase jurídica, encarnaria com perfeição a figura da mulher julgada por ser quem é, e não pelo que fez.
Mas há algo de irônico nisso. Porque, assim como o público julga Odete sem conhecer toda a trama, também julga pessoas reais sem conhecer os fatos. A cada rumor, a cada “vazamento”, a verdade se fragmenta em versões. E, enquanto o tribunal jurídico exige provas e coerência, o tribunal social busca aplausos e cliques. Um é guiado pela razão; o outro, pela emoção. Um corrige injustiças; o outro, as multiplica.
O perigo desse descompasso é a corrosão das instituições e da própria ideia de verdade. Quando a emoção se sobrepõe à razão e a visibilidade substitui a legitimidade, o Estado de Direito perde espaço para a tirania das redes. A Justiça, que deveria ser o freio da fúria coletiva, torna-se alvo da impaciência pública. Em meio a essa tensão, a pergunta que se impõe é: até que ponto ainda somos capazes de esperar pela verdade?
A nova morte de Odete Roitman, ou seu desaparecimento, quem sabe, é mais do que um recurso de roteiro. É um espelho. Ela nos lembra que toda narrativa tem versões e que julgar é um ato de poder. Poder que, quando exercido sem responsabilidade, destrói reputações, biografias e até mesmo a noção de justiça. O tribunal social não oferece direito de defesa, não admite apelação e raramente se retrata. É um julgamento sem rosto e sem memória, mas com consequências permanentes.
Enquanto o Direito se ancora na racionalidade e na norma, a sociedade parece cada vez mais seduzida pelo espetáculo da condenação pública. E talvez a grande pergunta, hoje, não seja mais “quem matou Odete Roitman”?, mas “quem matou a verdade”? Porque, quando a pressa de julgar substitui o dever de compreender, é a própria justiça que morre, e ninguém se pergunta quem a matou.
Flávio Vaz Calderaro - Advogado. Professor universitário. Pós-doutorando, doutor e mestre em Direito.
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