Chega de desculpas

Quantas vezes mais Divinópolis terá de assistir ao mesmo espetáculo repetido, cansativo e cruel? O Hospital Regional, esse fantasma monumental que domina o debate público há anos, voltou ao centro das atenções, e com ele reapareceu o velho roteiro: quando o assunto é abrir as portas e atender quem precisa, cada autoridade empurra a responsabilidade para a outra. Nada mais previsível. Nada mais frustrante. Nada mais nocivo para quem depende do SUS.
Durante visita à cidade, o governador Romeu Zema (Novo) reafirmou que a obra está pronta, mas que a inauguração depende da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e da Ebserh, responsável pela gestão. Do outro lado, a universidade insiste que só poderá dar andamento ao processo quando a Assembleia aprovar o Projeto de Lei 4.690/2025, que autoriza a doação do prédio. O reitor Marcelo Andrade foi claro: sem essa aprovação ainda em 2025, todo o cronograma pode ruir, e a abertura do futuro Hospital Universitário, prevista para 2026, corre risco. E assim o jogo segue.
O povo, porém, não quer troféus políticos, nem quer assistir a disputas de protagonismo. Não deseja saber quem será o pai da obra, tampouco quem levará o crédito no próximo palanque. A população quer o básico, o óbvio, o urgente: um hospital funcionando. Um atendimento digno. Uma porta aberta em vez de uma justificativa nova. As pessoas que precisam de internação, de cirurgias, de emergência, não têm tempo para esperar que estruturas de poder entrem em acordo. Quem precisa de hospital não vive de promessas.
A verdade é dura: enquanto um lado diz que cumpriu seu papel e aponta o outro como responsável pelo atraso, vidas continuam sendo empurradas para fila, para o improviso, para longe de Divinópolis. Sempre foi assim. É a história do Hospital Regional do começo ao fim: governos, gestores, instituições e legisladores que, em vez de somarem forças, revezam a culpa e compartilham a paralisia.
Agora, novamente, o impasse se repete. O Estado entrega a obra, mas condiciona a abertura à UFSJ e à Ebserh. A UFSJ diz que está pronta, mas depende da Assembleia para receber formalmente o prédio. A Assembleia só decide quando a política deixar. E, no meio desse labirinto burocrático, quem perde sempre é o mesmo: a população.
O hospital já ultrapassou qualquer prazo razoável, já esgotou qualquer justificativa aceitável e já consumiu toda a paciência que a sociedade podia oferecer. O que está em jogo não é mérito, não é bandeira partidária, não é quem aparece na foto da inauguração. O que está em jogo é saúde pública. É atendimento. É vida.
Chega de empurrar responsabilidades. Chega de discursos que não viram ação. Chega de transformar um equipamento essencial em palco de recados públicos. O Hospital Regional precisa sair do papel e das falas imediatamente. E isso só acontecerá quando todos os envolvidos fizerem aquilo que a população sempre fez: parar de olhar para o lado e assumir a parte que lhes cabe.
A cidade não quer culpados. Quer solução. Quer o hospital aberto. Quer o atendimento funcionando. Nada mais. Nada menos. É o mínimo que Divinópolis merece depois de tantos anos de espera, frustração e descaso.
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
