Dor trancada

Elas estavam trancadas, sem camas, sem água, sem dignidade. Algumas levadas à força, sem ordem judicial, e mantidas em imóveis que se apresentavam como clínicas de reabilitação. O cenário encontrado em Ermida, durante a operação que fechou duas instituições clandestinas nesta semana, é mais do que um caso policial: é um retrato cruel da omissão pública diante do sofrimento humano. Em nome da “cura”, mulheres foram submetidas a cárcere, maus-tratos e ameaças. E o mais estarrecedor: uma dessas clínicas já havia sido interditada há mais de 20 anos; a outra, há poucos meses. Voltaram a funcionar como se a decisão do Estado não significasse nada.
Quando locais assim ressurgem do nada, o problema não está apenas na ilegalidade, mas na falta de memória e de vigilância. O Estado fecha as portas hoje e, amanhã, volta a fingir que não vê. Essa reincidência é o retrato mais fiel da nossa falência institucional: não há fiscalização permanente, não há controle efetivo, e a vida segue sendo tratada como um assunto de segunda ordem.
As chamadas “clínicas terapêuticas” clandestinas se multiplicam em todo o país, transformando a saúde mental em negócio. Vendem uma promessa de reabilitação, mas entregam degradação. E o fazem com o silêncio cúmplice de quem deveria fiscalizar. São depósitos humanos, onde se misturam fé distorcida, improviso e lucro, e onde o sofrimento é administrado à base de gritos, isolamento e violência.
Não se trata apenas de um desrespeito à lei sanitária, mas a um crime moral. Nenhum discurso de “acolhimento” pode justificar práticas de tortura e violação de direitos humanos. E é preciso dizer claramente: quando o poder público não age, torna-se parte do problema. Cada interna trancada sem assistência, cada denúncia ignorada, cada clínica que reabre depois de interditada representa uma assinatura de omissão.
É inaceitável que a fiscalização só apareça quando o escândalo explode. A Vigilância Sanitária, a Polícia e os órgãos sociais fizeram o que precisavam fazer, mas tarde demais. O desafio agora é transformar operação em política, denúncia em prevenção, indignação em compromisso. Fiscalizar é dever permanente, não medida de emergência.
O caso de Ermida é um espelho incômodo: reflete o quanto o país negligencia a saúde mental, o quanto naturalizamos a exclusão de quem sofre, e o quanto ainda confundimos controle com cuidado. E é também um alerta para Divinópolis e para toda a região, porque não basta fechar as portas dessas clínicas; é preciso garantir alternativas reais, públicas e humanas de acolhimento e tratamento.
Enquanto o sofrimento for visto como oportunidade de lucro, novas clínicas irão surgir, com novos nomes e os mesmos horrores. E enquanto o Estado continuar fingindo que não vê, a dor seguirá confinada, invisível, silenciada, trancada atrás de muros que todos conhecem, mas poucos têm coragem de derrubar.
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