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Editorial

Voz ignorada

Voz ignorada

As manifestações foram muitas. As ruas falaram, os servidores gritaram, a população questionou. Houve protesto, pressão, mobilização. Mas, no fim, nada disso parece ter feito diferença. O processo de privatização da Copasa segue adiante, como se todo esse barulho fosse apenas parte do cenário, e não um alerta legítimo de quem sente na pele o impacto das decisões tomadas lá de cima.

E é exatamente aí que começa a preocupação. Quando uma decisão desse tamanho avança sem que a voz das pessoas seja realmente considerada, o risco não é só político, é social. Não basta dizer que houve “debate”, quando na prática o que houve foi uma corrida contra o tempo, impulsionada pelo peso da dívida e pela necessidade de entregar respostas rápidas ao Propag. Mas decisões rápidas costumam cobrar caro, e não do governo, mas de quem depende do serviço todos os dias.

A aprovação do parecer na CCJ não é apenas um ato formal. É o sinal de que o governo está determinado a seguir, independentemente das dúvidas que ainda pairam no ar. E elas não são poucas. A primeira delas é simples e direta: estamos diante de um projeto estruturado, sólido, comparado com outras experiências já feitas no país? Ou é mais uma solução emergencial, construída às pressas, que tenta transformar saneamento básico em saída financeira?

No meio desse caminho acelerado, há pontos que exigiam mais cuidado. Dentre diversos assuntos, vem a vida de quem faz a Copasa funcionar. São cerca de 9 mil trabalhadores espalhados por Minas, muitos dedicados há décadas ao saneamento. Um período de 18 meses de garantia de contrato não é resposta, é adiamento. É tempo comprado para não enfrentar de frente o que realmente está em jogo: o futuro de milhares de famílias. Essas pessoas merecem mais do que silêncio. Merecem transparência. Merecem respeito. 

E tudo isso acontece enquanto governo e oposição repetem o mesmo roteiro de sempre: um acusa, o outro reage, ambos defendem suas versões com convicção, mas nenhuma delas responde às perguntas que realmente importam. O povo não quer saber quem vai ganhar capital político com isso.  O povo quer é não perder a segurança de ter água em casa. Quer conta que não vire peso impossível. Quer saber que o serviço, público ou privado, vai continuar funcionando.

A principal questão de toda essa discussão envolve responsabilidade. E responsabilidade significa reconhecer que privatizar saneamento não é uma decisão qualquer. Não pode ser tomada no calor da pressa, nem no impulso de resolver um problema fiscal imediato. É uma decisão que mexe com a saúde, com o cotidiano, com o orçamento, com a dignidade das pessoas.

Se todo o barulho das ruas não foi suficiente, que pelo menos tenha servido de aviso: quando o Estado deixa de escutar, quem paga o preço é sempre o cidadão comum. E antes de Minas seguir adiante sem olhar para trás, vale deixar uma última reflexão: será que estamos decidindo com a cabeça… ou apenas com a urgência?

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