Nada a celebrar

O Dia do Rio, celebrado nesta segunda-feira, deveria ser um convite à conscientização e ao compromisso com o futuro ambiental. Em Divinópolis, porém, a data funciona quase como um espelho: basta olhar para o rio Itapecerica para perceber que, apesar de ações pontuais, o cuidado real ainda está muito distante do necessário. A Prefeitura celebrou a data reforçando a rotina de manejo de aguapés, roçado das margens e plantios de mudas em áreas estratégicas, esforços importantes, silenciosos e constantes. Mas nenhum trabalho isolado tem força suficiente para transformar o que se tornou, há décadas, o principal gargalo ambiental da cidade.
Isso porque o problema central do Itapecerica não está na superfície. Está na água, na estrutura, naquilo que não se vê a olho nu, mas se sente no cheiro, na cor e no fluxo lento do rio que corta a cidade. Hoje, grande parte do Itapecerica ainda recebe esgoto in natura, despejado direta ou indiretamente ao longo do trecho urbano. A população paga taxas, cumpre seus deveres e segue acreditando que um dia verá o rio verdadeiramente limpo, mas esse dia nunca chega.
A Copasa executa atualmente o maior pacote de obras da história do saneamento em Divinópolis, um investimento de R$ 307 milhões destinado à ampliação e modernização do sistema de esgotamento sanitário. O projeto inclui a instalação de interceptores, redes coletoras e a eliminação de fossas sépticas, além da destinação de todo o esgoto urbano para a Estação de Tratamento Rio Itapecerica. A já conhecida ETE Itapecerica.
Mas o ponto crucial permanece: apesar dos avanços estruturais, o impacto real ainda não chegou ao rio. O Itapecerica continua recebendo esgoto e, ao mesmo tempo, carregando memória, mas que ficaram no passado. Hoje, virou símbolo de preocupação e de descaso acumulado.
O Dia do Rio é uma data simbólica, mas símbolos perdem força quando a realidade insiste em contradizer o discurso. A Prefeitura atua, a Copasa promete, relatórios apontam evolução, obras avançam, mas o rio continua poluído. Enquanto o Itapecerica permanecer doente, qualquer celebração soa como promessa pela metade.
Divinópolis precisa transformar o cuidado em resultados. O rio não pode esperar mais uma década, mais uma etapa de obra, mais um plano técnico. Ele precisa respirar, fluir, renascer. E isso só acontecerá quando o compromisso for integral, não apenas anunciado, mas concretamente cumprido, monitorado e cobrado pela própria população.
No Dia do Rio, a pergunta que se impõe não é de celebração, mas de responsabilidade: até quando o Itapecerica seguirá carregando sozinho o preço por tudo aquilo que a cidade deixou de fazer?
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