Burocracia que custa caro

É revoltante. E, pior, é repetitivo. Sempre que o poder público precisa fazer algo simples, urgente e óbvio, surge o velho inimigo de sempre: a burocracia. Ela não apenas atrasa obras, processos e projetos. Ela também mata. Mata quando faz o Estado ignorar o tempo real da vida das pessoas, mata quando a licitação vale mais que a prevenção, mata quando a cautela vira desculpa para a paralisia. O caso divulgado pelo Agora na edição de quinta-feira, sobre o semáforo que nunca chega, apesar do dinheiro já estar na conta desde junho, escancara essa lógica cruel.
O cruzamento da avenida 21 de Abril com a rua São Sebastião é um exemplo doloroso de como o sistema público falha justamente onde deveria funcionar com mais rapidez. A obra de pavimentação foi concluída, o tráfego foi liberado, o fluxo aumentou, mas o equipamento que traria segurança continua preso em papéis, assinaturas, protocolos e etapas que parecem intermináveis. O recurso de R$ 200 mil está garantido, o projeto está pronto, a necessidade é evidente. Mas falta o que tantas vezes falta no Brasil: a capacidade de agir antes que a tragédia aconteça.
E a tragédia aconteceu. José Francisco de Assis, ciclista experiente, conhecido por sua atuação no coral da Igreja do bairro, foi atingido no local e não resistiu aos ferimentos. Ele morreu porque o trânsito não perdoa atrasos burocráticos. Morreu porque o equipamento que organizaria o cruzamento ainda está “em tramitação”. Morreu porque a máquina pública leva meses para decidir o que a vida decide em segundos.
E esse caso seria apenas mais um entre tantos, se não fosse também a mesma lógica que se repete no maior símbolo da ineficiência estadual na região: o Hospital Regional. Uma obra iniciada há mais de uma década, paralisada em 2016, retomada somente em 2023 e ainda hoje sem entregar sequer um leito à população. Uma novela vergonhosa, feita de promessas divergentes, disputas políticas, atrasos, indefinições e empurra-empurra de responsabilidades. Uma obra que deveria estar funcionando desde 2011, salvando vidas e reduzindo filas, mas que segue presa à mesma burocracia que impede até a instalação de um simples semáforo.
Há casos em que a má vontade política fala mais alto. Há casos em que o interesse eleitoral empurra soluções para depois. Mas há também situações em que, mesmo quando há vontade, o sistema é tão lento, tão amarrado, tão engessado, que nada avança. E quando os dois se juntam, o resultado é desastroso. Quem perde é sempre o povo.
O Brasil, e Divinópolis em particular, precisa parar de aceitar como normal que tudo demore, que tudo dependa de etapas intermináveis, que tudo precise de um rito mais importante do que o resultado. O semáforo vai sair. O hospital, um dia, vai abrir. Mas a pergunta que nunca pode ser esquecida é: quantas vidas poderiam ter sido poupadas se o Estado tivesse agido na hora certa?
A burocracia não pode continuar sendo a maior obra pública do país. Porque ela não entrega nada. Só tira. Sempre de quem menos pode perder.
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
