Barreiras que ainda matam

Divinópolis chega ao 1º de dezembro com números que falam por si e que deveriam inquietar qualquer gestor público, profissional de saúde ou cidadão minimamente atento. O município já registra 867 casos de HIV, com 81% concentrados em homens, sobretudo jovens de 20 a 39 anos. Os dados mais recentes comprovam o panorama: 46 casos em 2024, 20 em 2025, novamente com forte predominância masculina. Não é apenas estatística. É diagnóstico, é alerta, é urgência.
Neste Dia Mundial de Luta Contra a Aids, e ao longo de todo o “Dezembro Vermelho”, o mundo se une para lembrar que o HIV não desapareceu. Pelo contrário: as infecções seguem concentradas nas chamadas populações-chave, justamente aquelas que mais enfrentam barreiras para acessar informações, prevenção e tratamento. Esse perfil não se alterou. O que mudou, infelizmente, foi o cenário global: cortes de financiamento internacional, retrocessos legais, políticas punitivas e o enfraquecimento de programas comunitários ameaçam décadas de avanços.
Em 2025, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids) alertou que uma crise histórica de financiamento pode desfazer tudo o que foi construído desde os anos 1980. A estimativa é sombria: 3,3 milhões de novas infecções no mundo até 2030, caso os compromissos globais não sejam cumpridos. E enquanto isso, 9,2 milhões de pessoas seguem sem acesso ao tratamento, algo inconcebível diante da eficácia comprovada da terapia antirretroviral.
Divinópolis tenta fazer sua parte. A ação realizada no quarteirão da rua São Paulo marcou o início do “Dezembro Vermelho” com testagem rápida, distribuição de preservativos, vacinação e orientações. É um esforço importante, necessário, visível. Mas insuficiente. Campanhas pontuais não resolvem sozinhas um problema que se aprofunda justamente onde o estigma, a desinformação e a discriminação ainda falam alto.
É preciso dizer, claramente: o preconceito mata tanto quanto o vírus. Ele afasta do sistema de saúde quem mais precisa dele, atrasa diagnósticos, impede que jovens busquem ajuda por medo de serem julgados. E isso segue acontecendo. A epidemia se concentra entre HSH, pessoas trans, profissionais do sexo, usuários de drogas e pessoas privadas de liberdade não por acaso, mas por negligência histórica e estrutural.
O tema global deste ano: “Eliminar as barreiras, transformar a resposta à AIDS”, não poderia ser mais adequado. Barreira é o que não falta: social, moral, econômica, legal. E nenhuma delas será derrubada apenas com uma ação por ano, por mais bem-intencionada que seja. É preciso política contínua, orçamento consistente, formação permanente, combate explícito ao estigma e presença ativa do poder público onde hoje o Estado ainda se omite.
Divinópolis tem números que mostram a dimensão do desafio e, ao mesmo tempo, o caminho a seguir. Os casos estão identificados, os perfis são conhecidos, as brechas estão mapeadas. O que falta, como sempre, é constância. O “Dezembro Vermelho” não pode ser tratado como ponto fora da curva, como agenda simbólica ou data comemorativa. Deve ser o lembrete incômodo, e necessário, de que a luta contra a Aids é diária. E de que qualquer recuo, especialmente em tempos de cortes e retrocessos globais, cobra um preço alto demais.
Se o mundo exige transformação, o Brasil não pode se contentar com gestos. Precisa de ação permanente, firme e corajosa. Porque enquanto houver estigma, desigualdade e falta de acesso, o vírus continuará encontrando espaço para avançar. E isso, como os números mostram, já passou do limite aceitável.
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