A pressa pode custar caro

Há momentos em que um episódio local expõe, com força brutal, a fragilidade de decisões que pretendem redesenhar o futuro de uma área tão sensível quanto o saneamento básico. A denúncia do prefeito de Divinópolis, Gleidson Azevedo, sobre desabastecimento em bairros da cidade em plena semana de deliberação da Assembleia Legislativa sobre a privatização da Copasa, não é um detalhe lateral. É um alerta. E, se confirmado o ritmo acelerado da votação, é também um teste de responsabilidade pública.
Independentemente da razão técnica apontada pela Copasa, que classificou o episódio como resultado de um “vazamento oculto”, o fato é que a discussão ganhou contornos mais amplos ao ser associada, pelo prefeito, à possibilidade de boicote durante a transição para um modelo privatizado. A simples existência de tal suspeita, vindo de um aliado político do governo, evidencia que há muito mais em jogo do que indicadores, balanços e promessas de eficiência. Há uma crise de confiança, e ela precisa ser tratada com seriedade, não com pressa.
A Assembleia Legislativa encerrou o primeiro turno com 50 votos favoráveis e 17 contrários ao projeto, em uma sessão marcada por protestos nas galerias e críticas contundentes da oposição sobre o suposto atropelo do debate. Mesmo com alterações que garantem 18 meses de estabilidade aos trabalhadores e abrem espaço para realocação após esse período, o mérito central continua intocado: será que o Estado está, de fato, preparado para abrir mão do controle de uma companhia que atende mais de 600 municípios? E mais: os municípios estão preparados para lidar com a transição?
A consulta apresentada pela Associação Mineira de Municípios (AMM) ao Tribunal de Contas expõe a mesma inquietação. Prefeitos querem respostas objetivas sobre o que acontecerá com contratos que, em muitos casos, foram firmados antes do Marco Legal do Saneamento. Perguntas básicas seguem sem resposta: haverá obrigatoriedade de adaptação? Quem arcará com custos caso haja rompimento contratual? O município terá autonomia ou ficará refém de interpretações jurídicas posteriores?
Não é seguro que uma decisão com impacto estrutural sobre abastecimento de água, coleta de esgoto e investimentos de longo prazo avance enquanto prefeitos pedem socorro e parlamentares reclamam da falta de estudos públicos e transparentes. A pressa pode atender ao calendário político, mas não necessariamente ao interesse coletivo.
A votação prevista para esta quarta-feira é apresentada como decisiva. E é mesmo. Mas um processo decisivo exige clareza. Exige serenidade. Exige, sobretudo, que todos os envolvidos compreendam o alcance das escolhas que estão fazendo. O episódio de Divinópolis, ainda que negado pela Copasa, demonstra um ponto essencial: em uma área tão delicada, qualquer ruído se transforma rapidamente em grave instabilidade social.
Não se trata de defender ou rejeitar a privatização. Trata-se de reconhecer que mudanças dessa magnitude não podem sobreviver à sombra da dúvida. A água que chega, ou deixa de chegar, na torneira das pessoas não pode ser vítima de incertezas políticas, jurídicas ou operacionais.
Se a Assembleia confirmou a votação para hoje, a pergunta que se impõe é simples e inadiável: era o momento? E, mais importante ainda: todos os pontos estão realmente claros? Porque, se não estiverem, o risco não é apenas de decisões precipitadas. O risco é de que, no futuro, falte mais do que água. Falte responsabilidade. Falte confiança. Falte verdade.
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