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Editorial

Onde vamos parar?

Por Bruno
Onde vamos parar?

A cena se repete com frequência assustadora: gritos no lugar do diálogo, ofensas no lugar do argumento, agressões no lugar do respeito. O extremismo deixou de ser exceção e passou a ocupar o centro do debate público. E não é apenas nos grandes centros ou em disputas nacionais, ele está nas ruas, nas redes e, como ficou claro neste fim de semana, também em Divinópolis.

Durante um ato contra a anistia aos envolvidos nos atos de 8 de Janeiro e contra o chamado PL da Dosimetria, realizado neste final de semana, próximo à feira do bairro Niterói, um homem que passava pelo local decidiu transformar divergência em ataque. O alvo foi o vereador Vitor Costa, que discursava quando passou a ser xingado, provocado e alvo de gestos obscenos. Não houve confronto físico, mas o episódio escancara algo mais profundo: opiniões diferentes deixaram de ser toleradas.

O protesto em Divinópolis não foi um fato isolado. Manifestações com a mesma pauta ocorreram em todas as capitais do país, reunindo milhares de pessoas de diferentes perfis, idades e visões políticas. Em alguns locais, houve tensão; em outros, prisões pontuais ou tentativas de provocação. Nada disso, porém, justifica a normalização da agressividade como linguagem política.

O debate sobre o PL da Dosimetria é legítimo. A defesa da anistia ou da punição também é. O que não é aceitável é a tentativa de silenciar o outro pelo medo, pela intimidação ou pelo ódio. Democracia pressupõe conflito de ideias, não a eliminação simbólica, ou física, de quem pensa diferente.

Esse clima de intolerância não se limita à política nem às fronteiras brasileiras. No mesmo fim de semana, o mundo foi chocado por um atentado terrorista na Austrália, durante uma celebração judaica, que deixou mortos e dezenas de feridos. Um ato brutal, movido pelo extremismo, que levou o presidente Lula a classificar como “inaceitável” qualquer manifestação de ódio que atente contra valores básicos de convivência, liberdade religiosa e respeito à vida.

Comparar episódios não significa equipará-los em gravidade, mas reconhecer um fio comum que os conecta: a incapacidade crescente de conviver com a diferença. Quando o outro deixa de ser visto como cidadão e passa a ser tratado como inimigo, todos perdem.

A pergunta que fica é incômoda, mas necessária: onde vamos parar se cada discordância virar ataque? Se cada debate virar uma trincheira? Se cada praça pública se transformar em território de hostilidade?

Não se trata de pedir silêncio, mas responsabilidade. Não de negar paixões políticas, mas de lembrar que elas não podem justificar o desrespeito. A democracia não morre apenas em grandes rupturas institucionais, ela também se desgasta, aos poucos, toda vez que o diálogo é substituído pela agressão.

E esse é um risco que nenhuma cidade, nenhum país e nenhuma sociedade pode se dar ao luxo de ignorar.

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