Saúde não é prioridade?

A prioridade parece clara em Minas Gerais, e ela não é a saúde. Basta observar o ritmo da caneta na Cidade Administrativa. Em apenas uma semana, o governo estadual sancionou a lei que autoriza a privatização da Copasa. No mesmo período, segue sem assinatura o projeto que permite a doação do Hospital Regional de Divinópolis, uma obra aguardada há mais de dez anos por uma população cansada de promessas e adiamentos.
A diferença de tratamento não é detalhe burocrático. É uma escolha política. O projeto do hospital foi aprovado antes, por unanimidade, em segundo turno na Assembleia Legislativa, no dia 10 de dezembro. Ainda assim, ficou para trás. A privatização da Copasa, aprovada uma semana depois, avançou com rapidez, foi sancionada e publicada no Diário Oficial. Diante desse contraste, a pergunta é inevitável: a saúde pública não é prioridade em Minas Gerais?
O Hospital Regional de Divinópolis não é um capricho regional, nem um projeto inconcluso por falta de estrutura. Trata-se de uma unidade estratégica para atender 54 municípios do Centro-Oeste mineiro. São mais de 16,7 mil metros quadrados de área construída, em um terreno de 53 mil metros quadrados, planejados para funcionar como referência em atendimentos de média e alta complexidade.
O projeto prevê 202 leitos, incluindo UTIs adultas e neonatais, internação clínica, pediátrica e obstétrica, além de pronto atendimento, emergência, centro de parto normal e atendimento a gestações de alto risco. Uma estrutura capaz de reduzir filas, evitar transferências longas e desgastantes, salvar vidas que hoje se perdem na espera. O hospital existe no papel, no concreto e na necessidade, só não existe na prática.
O que torna a demora ainda mais grave é o risco real de prejuízo irreversível. Os cerca de R$ 40 milhões destinados à conclusão do Hospital Regional são recursos provenientes do acordo judicial firmado após a tragédia de Brumadinho, que matou 272 pessoas e expôs, de forma brutal, a fragilidade da proteção à vida em Minas. Esses recursos têm prazo. A sanção precisa ocorrer ainda neste ano. Se ficar para o próximo ano, o estado corre o risco de perder o investimento e manter o hospital fechado por ainda mais tempo.
Enquanto isso, o governo argumenta que a privatização da Copasa é necessária para enfrentar a dívida estadual. O debate econômico é legítimo. O que não é aceitável é a mensagem implícita: em Minas, a caneta corre quando o assunto é vender patrimônio público, mas emperra quando o compromisso é com a saúde da população.
A deputada Lohanna França resumiu o sentimento coletivo ao questionar, nas redes sociais, a lentidão no caso do hospital e a pressa no da Copasa. A crítica ecoa nas ruas, nos corredores da saúde pública e nas famílias que dependem do SUS. Porque, quando o governo hesita, quem paga o preço é o cidadão.
O Hospital Regional de Divinópolis se tornou símbolo de um descaso histórico. Não faltam recursos, não falta projeto, não falta demanda. Falta prioridade. Falta vontade política. Falta compreender que gestão pública se mede, antes de tudo, pela capacidade de proteger vidas. Se saúde não é prioridade agora, quando será?
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