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Editorial

Imoral

Por Bruno
Imoral

Não há ilegalidade. É preciso deixar isso claro desde a primeira linha. O que a Câmara Municipal de Divinópolis fez nesta terça-feira,16, não fere a lei. Mas fere algo talvez mais básico, mais essencial e infinitamente mais importante: a moral pública, o respeito com a cidade e a inteligência do eleitor.

Em uma reunião relâmpago, quase silenciosa, sem debate público, sem explicações claras e longe dos olhos atentos da população, os vereadores decidiram aumentar os próprios salários em mais de 42% a partir de 2029 e ampliar o número de cadeiras no Legislativo. Tudo isso em uma cidade que enfrenta problemas estruturais graves, filas na saúde, servidores com perdas salariais acumuladas, bairros esquecidos e demandas urgentes que se arrastam ano após ano.

Qual profissão, os responsáveis  em sã consciência, dão reajuste de mais de 42% no salário de uma só vez? E mais: decidido pelos próprios beneficiários. Nenhuma. Absolutamente nenhuma. E é justamente aí que mora o escândalo. Não é jurídico. É ético. É político. É social.

Claro, o aumento não vale para este mandato. Se valesse, seria um escárnio ainda maior. Mas o cálculo político é óbvio: aprova-se no primeiro ano, quando a poeira ainda pode baixar, quando a memória coletiva pode ser testada, quando se aposta que até 2028 o eleitor já tenha esquecido. Essa estratégia não pode funcionar. Não desta vez. O rosto e o nome de cada vereador que votou “sim” precisam ser lembrados, registrados e apresentados novamente ao eleitor no momento do próximo voto.

O mais grave é a forma. Tentaram esconder. Projeto protocolado à noite, reunião acelerada, ausência de explicações públicas, nenhuma justificativa direta ao povo que paga a conta. Inicialmente, a pauta do dia tinha apenas dois projetos aptos à votação. No meio da sessão, outros cinco foram incluídos e aprovados. Por quê? Por que não estavam na pauta oficial? Falta de organização ou intenção deliberada de reduzir o debate? A pergunta é legítima. E a resposta, constrangedora.

A Câmara tenta sustentar que não há impacto orçamentário, que o duodécimo é o mesmo, que tudo cabe dentro da Constituição. Mas o cidadão comum sabe: mais vereadores e salários maiores significam escolhas políticas. E, neste caso, escolhas feitas para dentro, nunca para fora.

Enquanto isso, os servidores municipais acumulam quase 20% de perdas reais. O Sintram denuncia, apresenta números, cobra recomposição. Do outro lado, o Legislativo olha para si mesmo e decide que merece quase 90% de aumento acumulado entre 2021 e 2029. O contraste é obsceno.

Essa legislatura começou com a vergonha do vale-alimentação inflado em mais de 260%, revogado apenas após forte reação popular. E encerra seu primeiro ano com mais um capítulo vergonhoso da mesma história: autoproteção, autobenefício e distanciamento completo da realidade da cidade.

Agora, os vereadores entram em recesso. Férias das reuniões. Silêncio. Mas Divinópolis não pode entrar em recesso da memória. Legal não é sinônimo de justo. E o eleitor precisa deixar isso claro, no tempo certo, com o único instrumento que realmente pesa: o voto.

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