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Editorial

Impossível de ignorar 

Por Bruno
Impossível de ignorar 

Divinópolis chegou à última semana de 2025 como se o calendário quisesse deixar um aviso final, duro e impossível de ignorar. O último fim de semana do ano foi pesado. Violento. Revelador. Tentativa de feminicídio, morte no trânsito, estatísticas alarmantes e uma cidade que encerra o ano convivendo com números que não permitem comemoração. Não foi um episódio isolado. Foi um retrato fiel de como foi 2025.

No último domingo, uma mulher de 25 anos foi encontrada com cerca de 16 perfurações pelo corpo, vítima de uma tentativa de feminicídio na avenida Limeira, no bairro Jardinópolis. Golpes de faca, estado grave, Sala Vermelha. Um crime que segue um roteiro conhecido: desentendimento, agressor com histórico policial, fuga. Um ciclo de violência que se repete, apesar de campanhas, alertas e discursos.

No sábado, a poucos metros dali, outra tragédia. Um homem de 37 anos morreu após capotar o carro na entrada do mesmo bairro. Foi ejetado do veículo e morreu no local. O trânsito, mais uma vez, foi transformado em palco de morte. Um problema que deixou de ser exceção e passou a ser rotina.

Os números confirmam essa percepção. Segundo dados da Sejusp, Divinópolis registrou até novembro 4.748 acidentes de trânsito em 2025. A média é assustadora: quase 432 acidentes por mês. É como se, a cada dia, mais de 14 ocorrências fossem registradas nas ruas da cidade. O trânsito virou um território de risco permanente, marcado por imprudência, excesso de velocidade, falta de fiscalização e uma sensação generalizada de impunidade.

Quando o olhar se amplia para a violência letal, o cenário é ainda mais grave. Foram 49 homicídios consumados e 15 tentativas ao longo do ano — mais que o dobro do registrado em 2024. Jovens seguem como as principais vítimas. Discussões banais, conflitos interpessoais e a presença constante de armas continuam transformando brigas em funerais.

A violência contra a mulher também deixa marcas profundas. Divinópolis contabilizou quatro feminicídios e cinco tentativas até o momento em 2025, além de mais de 1.500 registros de violência doméstica. Histórias como as de Lucélia Batista Silva e Henay Amorim expõem a brutalidade desses crimes e a fragilidade das redes de proteção. São casos que chocam, mas que não podem ser tratados como exceção.

O que o último fim de semana do ano revela é que Divinópolis precisa parar de naturalizar esses números. Não se trata apenas de segurança pública, mas de políticas integradas, educação, fiscalização, prevenção e responsabilidade coletiva. A violência se manifesta dentro de casa, nas ruas, no trânsito, nas relações cotidianas.

E há um dado simbólico que torna tudo ainda mais inquietante: ainda faltam dois dias para o fim do ano. Não há garantia de que esses números permanecerão os mesmos. 2025 ainda pode terminar com mais uma ocorrência, mais uma morte, mais um boletim policial.

Divinópolis se despede de um ano marcado pela violência em múltiplas frentes. O desafio que se impõe não é apenas virar a página do calendário, mas decidir se a cidade seguirá tratando esses episódios como fatalidades ou se vai, finalmente, enfrentá-los como prioridade.

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