Um ano de alertas

O ano de 2025 termina deixando uma sensação difícil de ignorar: a de que Divinópolis foi, aos poucos, se acostumando com o que nunca deveria ser normal. Não faltaram fatos, anúncios, discursos ou promessas. O que faltou foi ruptura. Ruptura com velhos problemas, com decisões desconectadas da realidade e com a lógica de empurrar para frente aquilo que exige enfrentamento imediato.
A violência deixou de causar espanto prolongado. 50 homicídios em um único ano não são apenas números: são histórias interrompidas, famílias devastadas e uma sensação constante de insegurança. Mortes por engano, execuções em plena luz do dia, perseguições dignas de cenas cinematográficas e um feminicídio que chocou o país passaram a disputar espaço no noticiário quase como rotina. A cidade assistiu, muitas vezes em silêncio, à escalada do medo. Prende-se, apreende-se, divulga-se números robustos, mas o sentimento de insegurança persiste. Quando o combate ao crime vira estatística e não estratégia, o problema apenas muda de endereço.
No meio desse cenário, a política pareceu, em diversos momentos, viver em um universo paralelo. Enquanto a população lidava com filas, medo e incertezas, o debate institucional se concentrou em benefícios, reajustes e vantagens futuras. A reação popular mostrou que ainda existe senso crítico, mas também revelou o tamanho do desgaste entre representantes e representados. Houve decisões corretas e gestos responsáveis, mas eles foram ofuscados por escolhas que soaram insensíveis diante da realidade de quem enfrenta a cidade real, longe dos gabinetes.
A saúde seguiu como o retrato mais fiel da espera. Espera por atendimento, por dignidade, por soluções definitivas. O Hospital Regional avançou em articulações, projetos e discursos, mas seguiu fechado, como símbolo de uma promessa que atravessa governos e mandatos. A UPA operou acima da capacidade, profissionais trabalharam no limite, pacientes aguardaram. Rankings até tentaram contar outra história, mas quem precisou do sistema sabe: acesso não significa resolutividade.
Na economia, Divinópolis mostrou força e contradição. Houve criatividade, empreendedorismo, eventos bem-sucedidos e iniciativas que movimentaram a cidade. Ao mesmo tempo, ficou evidente a fragilidade de um desenvolvimento que depende de decisões externas e carece de planejamento duradouro. A retomada de voos reacendeu expectativas, mas a interrupção rápida revelou como ainda caminhamos sobre terreno instável.
O grande saldo de 2025 não está apenas nos fatos, mas na forma como lidamos com eles. Normalizamos o grave, relativizamos o absurdo e aceitamos o improviso como regra. 2026 se aproxima carregando peso eleitoral e a chance de redefinir rumos. A pergunta que fica não é o que os próximos gestores farão, mas o que a cidade estará disposta a cobrar, porque o maior risco não é errar, é continuar se acostumando.
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