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Editorial

Os números gritam

Por Bruno
Os números gritam

Há números que ultrapassam o campo da estatística e se tornam um espelho incômodo do país que insistimos em ser. A nova atualização do Mapa Nacional da Violência de Gênero é um desses casos. Os dados, embora necessários, apenas reforçam aquilo que a sociedade já sabe, mas insiste em ignorar: a violência contra a mulher é cotidiana, persistente e profundamente naturalizada. Quase 40% das agressões acontecem dentro de casa e, em mais da metade dos episódios, outras pessoas presenciam a cena. Mesmo assim, o socorro não vem.

É chocante perceber como a violência doméstica já se tornou parte da rotina brasileira. As agressões ocorrem sob testemunhas, e nada acontece. Quase metade das mulheres agredidas diz não ter recebido apoio de ninguém, nem de familiares nem de vizinhos. O problema deixa de ser apenas do agressor e passa a ser de todos nós. É o retrato de uma sociedade que ainda trata a dor feminina como algo privado, como se não fosse responsabilidade coletiva enfrentar e romper esse ciclo.

O estudo também revela algo ainda mais grave: o desconhecimento sobre os próprios direitos. Embora a Lei Maria da Penha exista há quase duas décadas, um terço das mulheres brasileiras afirma não conhecê-la completamente. Como esperar reação, proteção e denúncia se o básico ainda não chega até quem mais precisa? A omissão informativa é também uma forma de violência.

Enquanto o país discute dados, Divinópolis convive com a violência na prática. O feminicídio registrado neste ano e que voltou à tona nesta semana, com a suspeita de que o acusado circula pela região da Ermida, é um lembrete de que a tragédia não termina no dia do crime. O medo se espalha entre moradores, famílias e crianças. A comunidade vive sob alerta. O caso, que deveria simbolizar justiça e resposta rápida, tornou-se mais um capítulo da sensação de abandono que tantas mulheres conhecem bem.

A violência contra a mulher não pode continuar sendo tratada como um problema individual. Não é um drama isolado de cada família. É um fracasso social que se repete porque há estruturas inteiras dispostas a permitir que se repita. Quando quatro em cada dez vítimas recorrem primeiro a familiares ou amigos, e não às instituições, é porque não confiam nelas. Quando apenas uma parte mínima registra denúncia formal, é porque não sente que será realmente protegida. Quando uma comunidade inteira teme a movimentação de um suspeito, é porque sabe que algo falhou pelo caminho.

A cada novo estudo, a cada novo caso, reforçamos a mesma constatação: não é falta de informação, não é falta de alerta, não é falta de provas. É falta de ação. Falta coragem política, prioridade pública e disposição para encarar o problema com seriedade. A violência de gênero exige presença, resposta, política pública, acolhimento real e punição efetiva.

O Brasil já sabe o que precisa ser feito. Divinópolis também. O que falta é parar de naturalizar o que não pode ser naturalizado. Falta romper o silêncio, inclusive o institucional. Falta, sobretudo, admitir que cada mulher agredida e cada feminicídio anunciado repetidas vezes são lembretes dolorosos de que ainda estamos muito longe de onde deveríamos estar.

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