Teatro sob vaias

Enquanto o Brasil clama por soluções concretas para seus inúmeros problemas, o palco da política nacional segue encenando um espetáculo de decadência moral, dialética e institucional. Em Brasília, o Congresso Nacional tornou-se cenário de um roteiro cada vez mais distante das reais necessidades da população. Discutem-se pautas ideológicas, promovem-se guerras de narrativas e até mesmo encenações teatrais – com direito a senador acorrentado à Mesa Diretora da Câmara – tomam conta do debate público. Tudo isso sob o olhar de uma sociedade que paga, com impostos altíssimos e serviços públicos precários, o custo dessa encenação disfarçada de política.
É impossível dissociar esse comportamento do que se vê em esferas menores do poder, como em muitas Câmaras Municipais. Vereadores, cuja função essencial é legislar, fiscalizar e articular soluções para os problemas da cidade, estão perdendo tempo – e fazendo a população perder dinheiro – em discussões sobre ideologia, guerra cultural e outros temas que, embora possam ter relevância em certos contextos, estão longe de serem prioridade diante dos inúmeros problemas que afetam a população.
Quando os representantes do povo desviam o foco da ação prática e se dedicam a disputas ideológicas que mais parecem um reflexo do que se vê nas redes sociais do que da realidade das ruas, o resultado é um só: o dinheiro público escorre pelo ralo. E não é pouco. Um deputado federal recebe, entre salários, verbas de gabinete, auxílio-moradia, passagens aéreas e outros penduricalhos, aproximadamente R$ 46 mil mensais — sem contar os inúmeros privilégios que cercam seus mandatos. Tudo isso bancado pelo suor do trabalhador brasileiro, que muitas vezes enfrenta ônibus lotado, plantões mal pagos, filas de espera e impostos sufocantes.
O que dizer de um parlamentar que, em vez de propor projetos sérios e fiscalizar os desmandos do Executivo, opta por se acorrentar à Mesa da Câmara como forma de protesto? Trata-se de um gesto simbólico, claro. Mas também de um desperdício de tempo, energia e dinheiro. Enquanto isso, milhões de brasileiros seguem sem acesso a saneamento básico, segurança pública eficiente, transporte de qualidade e oportunidades reais de crescimento.
Nas Câmaras Municipais, o cenário se repete em menor escala, mas com os mesmos vícios. Muitos vereadores preferem se engajar em polêmicas artificiais para gerar engajamento digital, ao invés de atuar junto ao Executivo, ouvir a população nos bairros, propor soluções realistas e cobrar o cumprimento das promessas feitas em campanha. É como se a política tivesse se tornado um grande reality show, no qual o voto popular serve apenas como a primeira etapa de uma grande encenação.
A consequência é a deterioração do debate público. A política, que deveria ser o espaço nobre do diálogo, da construção coletiva e da defesa do bem comum, se transforma em um campo de batalha simbólica, onde o que importa não é resolver, mas lacrar. Não é construir, mas desconstruir o adversário. Não é representar o povo, mas alimentar as próprias redes sociais com frases de efeito.
É urgente resgatar a seriedade da política. Os parlamentares, em todas as esferas, precisam se lembrar de que foram eleitos para servir, e não para se promover. A população precisa de resultados, de soluções práticas, de articulações sérias e de responsabilidade com o dinheiro público. Não há mais espaço para teatrinhos, muito menos para projetos que nada mudam na vida das pessoas. O lado bom, se é que há um, é observar a população caindo na realidade e criticando os parlamentares, cobrando que ajam como representantes do povo, sem cair em narrativas puramente ideológicas.
A política brasileira vive uma crise de propósito. E se não houver um reencontro com sua razão de existir – o povo –, continuaremos a pagar caro, muito caro, por um espetáculo cada vez mais vazio.
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