Carregando clima…
Editorial

Ultrapassa o simbolismo 

Ultrapassa o simbolismo 

Demorou, e muito, para o Brasil reconhecer oficialmente o que a história já discute há décadas. Somente em 2024, com a Lei Federal nº 14.759/2023, sancionada no final do ano, o Dia da Consciência Negra tornou-se feriado nacional. E se este reconhecimento parece tardio, é porque realmente é. Mas, ainda assim, chega carregado de significado.

A data dedicada à memória de Zumbi dos Palmares não se presta ao descanso, nem ao simples afastamento das rotinas. Ela carrega um chamado profundo à reflexão. É um convite e, por vezes, um incômodo, para revisitar aquilo que o país tantas vezes tentou suavizar ou ignorar: a construção de uma sociedade erguida sobre séculos de escravidão, e cuja estrutura desigual ainda ecoa esse passado. O racismo permanece vivo, operando de forma explícita ou silenciosa, visível nos índices sociais, nos acessos desiguais e nas oportunidades restritas. Celebrar a Consciência Negra é, portanto, mais do que lembrar. É reconhecer, confrontar e agir.

E Divinópolis encontra, mais uma vez, uma maneira de transformar essa reflexão em movimento. A cidade recebe nesta manhã, mais uma edição da “Marcha da Consciência Negra". Com concentração  e caminhada de uma praça a outra. O evento marca os 30 anos da Marcha Nacional de Zumbi dos Palmares e é organizado pelo Movimento Negro de Divinópolis (Mundi) e pelo Conselho Municipal de Igualdade Racial. Trata-se de uma mobilização que ultrapassa o simbolismo. É uma afirmação coletiva de que há muito o que se caminhar, literalmente e socialmente, para que a igualdade deixe de ser promessa e se torne realidade.

Enquanto isso, o município passa pelos ajustes típicos do feriado prolongado e do ponto facultativo de sexta-feira. Serviços essenciais seguem funcionando, outros setores interrompem atividades. Mas nada disso deve ofuscar o propósito maior do dia. A data não se define pelo que abre ou fecha, mas pelo que precisa abrir dentro de cada cidadão: a disposição de compreender o país que temos e o país que podemos construir.

O feriado nacional chegou atrasado, como tantas medidas que buscam reparar, ainda que simbolicamente, uma dívida histórica. Divinópolis também demorou a incorporar esse reconhecimento. Mas agora que a data está oficialmente marcada no calendário, é preciso ir além da formalidade. Porque a consciência não nasce de decreto, nem se consolida com feriados. Consciência se constrói no cotidiano, na educação, na escuta, no respeito e na disposição de enfrentar o que incomoda.

A Marcha, os debates e o feriado não são fins em si. São ferramentas. São lembretes de que a história não pode ser negligenciada e de que a igualdade racial ainda é um projeto em construção. Este 20 de Novembro, portanto, deve servir não apenas como pausa, mas como retomada. Um momento para olhar para trás com respeito, para o presente com sinceridade e para o futuro com coragem.

Porque a Consciência Negra não é sobre um dia, mas sobre um compromisso. E compromissos verdadeiros não expiram no fim do feriado. Eles começam nele.

Compartilhe:WhatsAppFacebookTwitter

Comentários

Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.

Carregando comentários…