Já passou da hora

Até quando? Essa tem sido a pergunta atravessada na garganta do Brasil e, sobretudo, na garganta das mulheres negras, todos os anos, todo mês de novembro, toda vez que o calendário se aproxima do Dia da Consciência Negra. As audiências são realizadas, os diagnósticos são repetidos, os dados são escancarados. E, mesmo assim, seguimos presos ao mesmo enredo de desigualdades gritantes, como se repetir fosse resolver. Como se nomear a ferida fosse curá-la. Como se ouvir fosse agir.
A audiência que antecedeu a 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, realizada nesta terça-feira, foi mais uma dessas cenas em que o país se olha no espelho e desvia o olhar logo em seguida. Os números apresentados são velhos conhecidos: jovens mulheres negras ganham menos, enfrentam mais desemprego, ocupam mais vagas informais, sustentam jornadas duplas e triplas de cuidado e, quando conseguem entrar no mercado, permanecem menos de um ano no emprego. Isso não é novidade, isso não é descoberta, isso não é surpresa. É rotina. É estrutura. É Brasil.
É também um retrato cruel de um país que, mesmo depois de décadas de debate, aceita como normal que jovens mulheres negras recebam 102% a menos do que jovens brancas. Que a informalidade alcance 40,8% delas. Que o desemprego atinja 16%, o dobro dos jovens brancos. Que políticas públicas caminhem a passos lentos, sempre empacadas na mesma justificativa: falta de recursos. Falta verba, falta prioridade, falta urgência. Mas nunca falta um discurso bonito para ocupar o microfone em novembro.
Enquanto representantes do governo reconhecem a ausência histórica de investimentos e enquanto organizações civis relembram que os obstáculos vão desde a maternidade precoce até a falta de oportunidades básicas, o país parece confortável em apenas confirmar, ano após ano, que a desigualdade existe. E segue existindo. E vai existir. A cada novembro, insiste-se na mesma liturgia: audiência, marcha, debate, dados, promessas. E, em dezembro, tudo volta para a gaveta.
É por isso que a marcha deste ano carrega um significado maior. Não é mais apenas uma caminhada por visibilidade. É um grito de exaustão. Uma cobrança direta a quem governa, a quem legisla, a quem decide. Porque já passou da hora. Já passou da fase de estudos, de levantamentos, de diagnósticos. O Brasil não precisa de novos números, precisa de novas respostas. Precisa transformar reconhecimento em ação. Estatística em política. Audiência em solução.
E, ao observar que ainda estamos discutindo a criação recente de uma estrutura específica para combater a discriminação no trabalho em uma instituição com mais de 130 anos, o atraso se revela sem pudor. A desigualdade não é acidental; ela foi construída, tolerada, empurrada para frente. E, enquanto se empurra, quem paga são as mesmas de sempre: as jovens mulheres negras, que sustentam o país, mas não recebem do país o mínimo de justiça.
Que fique muito claro: não basta celebrar a marcha, a mobilização ou a coragem dessas mulheres. Não basta ouvi-las. É preciso fazer. É preciso entregar. É preciso, enfim, mudar.
Que no próximo novembro, e que ironia depender disso, não venhamos repetir este editorial. Que não seja preciso, mais uma vez, anunciar que nada mudou. Que o país finalmente trate essa pauta como prioridade permanente. Que a 2ª Marcha não seja só mais um capítulo, mas um divisor de águas. O Brasil não pode chegar à 3ª Marcha com as mesmas perguntas. Muito menos com as mesmas respostas. Porque a verdade é simples: já passou da hora.
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