Estradas que cobram demais

Há dias em que o trânsito deixa de ser rotina e vira notícia, mas há outros em que ele apenas confirma uma rotina mais dura: a de um estado onde dirigir, caminhar ou pedalar em rodovias ainda envolve risco constante.
O último fim de semana foi um desses alertas. Na BR-262, em Betim, um engavetamento envolvendo cerca de 20 veículos deixou feridos em meio à forte neblina. Em Divinópolis, um capotamento na zona rural de Buritis terminou com a morte de um jovem e deixou outro em estado grave. Dois episódios diferentes, separados por quilômetros, mas unidos pelo mesmo desfecho que se repete com frequência: vidas interrompidas no trânsito.
Os casos ganham ainda mais peso quando colocados ao lado de um diagnóstico estrutural.
Minas Gerais foi apontada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) como o estado com o pior índice de segurança rodoviária do Sudeste. O levantamento “Rodovias que Perdoam” mostra que 30,9% das estradas mineiras estão na faixa mais crítica de segurança, enquanto apenas 22,4% oferecem alto nível de proteção.
Não é apenas uma estatística técnica. É um retrato do quanto uma falha, humana ou mecânica, pode se transformar em tragédia dependendo do caminho.
No Centro-Oeste mineiro, o cenário reforça essa leitura. Entre janeiro e maio, a 7ª Região Integrada de Segurança Pública registrou 7.313 acidentes de trânsito e 67 mortes. Em Divinópolis, foram 2.106 ocorrências e sete óbitos no período.
A MG-050 lidera o ranking regional de acidentes, com 156 registros até maio. Em seguida aparece o trecho da mesma rodovia em Itaúna, com 110, e a rua Goiás, em Divinópolis, com 108 ocorrências.
São números que, repetidos mês após mês, acabam se normalizando no papel. Mas no asfalto, cada registro tem outro significado.
A CNT também aponta problemas estruturais que ajudam a explicar esse cenário: mais da metade das rodovias mineiras apresenta falhas de pavimento, sinalização ou geometria. Em 55,1% dos trechos não há acostamento. Em quase metade, a geometria é ruim ou péssima. Há ainda curvas perigosas sem sinalização e pontos críticos como erosões e pontes estreitas.
Em outras palavras, trata-se de uma combinação perigosa: tráfego intenso, infraestrutura deficiente e condições que amplificam qualquer erro.
É nesse contexto que os acidentes do fim de semana deixam de ser episódios isolados. Eles se somam a uma estatística maior, que insiste em não diminuir na mesma velocidade em que as promessas de melhoria aparecem.
Órgãos federais e estaduais citam investimentos em manutenção e conservação. O Dnit afirma que boa parte das rodovias federais está em condições adequadas. O governo estadual também anuncia aportes para recuperação da malha viária.
Mas o que chega ao usuário da via é o resultado final, e ele ainda está longe do ideal. Entre curvas perigosas, pistas mal sinalizadas e longos trechos sem estrutura adequada, o que se vê é um sistema que ainda cobra caro por cada deslocamento.
E o mais preocupante é que essa cobrança nem sempre permite segunda chance. Por trás de cada número, há uma história interrompida. E por trás de cada fim de semana como o último, há a lembrança de que muitos desses desfechos poderiam ter sido diferentes.
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