Não vai se calar

Uma cidade só é realmente inclusiva quando ninguém precisa “se adaptar” para ter o direito básico de ir e vir. Em Divinópolis, no entanto, esse princípio voltou a ser colocado à prova mais uma vez, e de forma dura.
O vídeo que mostrou a cadeirante Maria Cristiana, a Cris, precisando se arrastar para desembarcar de um ônibus não foi um episódio isolado de falha mecânica. Foi o estopim de uma história que, segundo ela própria, se repete há anos dentro do transporte coletivo do município.
Em entrevista ao Agora, Cris decidiu romper o silêncio e relatar o que chama de rotina de obstáculos. E a escolha de falar não veio por acaso: veio depois de inúmeras situações em que, segundo ela, a alternativa era sempre a mesma — esperar, improvisar ou enfrentar o constrangimento.
Ela afirma que os elevadores de acessibilidade falham com frequência e que, em muitos casos, a resposta vem antes mesmo da tentativa: o equipamento estaria quebrado. Isso significa, na prática, que o direito de embarcar ou desembarcar deixa de ser garantido e passa a depender do funcionamento de uma estrutura que deveria ser permanente.
A superlotação agrava o problema. Em horários de maior movimento, a circulação dentro dos ônibus se torna difícil até para quem não tem limitações de mobilidade. Para quem depende de cadeira de rodas, o espaço reduzido transforma o deslocamento em um exercício de paciência e, muitas vezes, de constrangimento.
“Eu não saio de casa para atrapalhar ninguém”, disse Cris, ao relatar a necessidade constante de pedir espaço, se desculpar e ainda lidar com olhares e pressa dos demais passageiros. Um cotidiano que, aos poucos, vai impondo limites invisíveis à liberdade de ir e vir.
Mas as barreiras não estão apenas dentro dos veículos. Ela relata que o trajeto até o ponto de ônibus também faz parte do problema: calçadas irregulares, mato alto e falta de manutenção dificultam ainda mais um percurso que já deveria ser simples.
A fala dela escancara uma realidade que muitas vezes passa despercebida: a acessibilidade não termina no ônibus. Ela começa na rua, no ponto, na calçada, e só funciona de fato quando todo o sistema funciona junto.
Diante da repercussão do caso, houve movimentação do poder público e da concessionária. A Prefeitura orientou o uso dos canais oficiais de denúncia e afirmou que vai acompanhar a situação. A empresa informou que fará revisão do veículo e prestará assistência à passageira. São respostas necessárias, mas que não encerram o problema. Porque o ponto central não é apenas o episódio que viralizou. É o fato de ele ter sido reconhecido como algo possível dentro da rotina.
O transporte coletivo é um serviço essencial. E quando ele falha de forma repetida justamente com quem mais depende dele, o problema deixa de ser pontual e passa a ser estrutural.
Ao dizer que não vai mais se calar, Cris não fala apenas por si. Ela dá voz a uma realidade que muitos vivem, mas poucos conseguem expor. Pessoas que deixam de sair, que mudam rotas, que evitam horários, tudo para não enfrentar o que deveria ser básico.
Os canais de denúncia são importantes. A fiscalização também. Mas nada disso substitui o essencial: um sistema que funcione sem exigir que o usuário lute pelo próprio direito.
O caso que começou com um vídeo continua agora como cobrança. E a pergunta que fica não é sobre um equipamento quebrado. É sobre quantas vezes ainda isso vai precisar acontecer até deixar de ser rotina.
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