O raro poder da união

Outro dia alguém perguntou por que uma vitória da Seleção Brasileira consegue mexer tanto com as pessoas. A resposta veio simples, mas carregada de significado: porque o futebol tem um poder raro. Durante alguns instantes, ele consegue fazer milhões de brasileiros sorrirem pelo mesmo motivo, ao mesmo tempo.
Não significa que os problemas desaparecem. Eles continuam onde sempre estiveram. As dificuldades econômicas, os desafios da saúde, da educação, da segurança, as divergências políticas e as preocupações do dia a dia não entram em recesso durante uma Copa do Mundo. A vida segue.
Mas há algo diferente quando a bola rola. Por noventa minutos, vizinhos que mal se conhecem conversam na calçada. Colegas de trabalho interrompem a rotina para acompanhar um lance. Famílias inteiras se reúnem diante da televisão. Pessoas que pensam completamente diferente sobre praticamente tudo comemoram o mesmo gol. Poucos acontecimentos ainda conseguem produzir essa cena.
Ninguém é obrigado a gostar de futebol. Ninguém precisa vestir a camisa da Seleção, acompanhar os jogos ou compartilhar dessa paixão. O esporte sempre será uma escolha individual. O que chama atenção, porém, é a capacidade que ele ainda possui de construir um sentimento coletivo em tempos tão marcados pela polarização.
Talvez por isso tenha causado estranheza ver que, logo após a emocionante vitória brasileira contra o Japão da última terça-feira, conquistada com um gol nos acréscimos e que garantiu a classificação às oitavas de final, parte das comemorações rapidamente deu lugar a disputas políticas nas redes sociais. Houve quem tentasse transformar um momento de alegria esportiva em mais um campo de batalha ideológica. Não precisava. Nem toda comemoração precisa carregar um lado. Nem toda bandeira verde e amarela precisa representar uma posição política. Nem todo símbolo, cor ou até mesmo um número precisa ser interpretado como manifestação ideológica. Às vezes, eles significam exatamente aquilo que sempre significaram: apoio ao país dentro das quatro linhas.
A Copa do Mundo nunca resolveu os problemas do Brasil. Nunca pretendeu resolver. Mas ela oferece algo igualmente importante: uma pausa. Um instante em que a rivalidade dá lugar ao abraço, em que desconhecidos comemoram juntos e em que crianças, jovens e idosos compartilham a mesma expectativa diante de um jogo. Em tempos em que tantos assuntos nos afastam, talvez valha a pena preservar aqueles poucos que ainda conseguem nos aproximar.
Daqui a alguns dias, a Copa terminará. As discussões voltarão, as divergências permanecerão e os desafios continuarão exigindo respostas. Faz parte da democracia e da vida. Mas, enquanto a bola estiver rolando, talvez possamos permitir que ela cumpra sua função mais bonita: lembrar que, apesar de todas as diferenças, ainda somos capazes de vibrar juntos por um mesmo motivo.
No fim das contas, alguns gols valem mais do que a classificação. Eles nos fazem recordar algo que o Brasil nunca deveria perder: a capacidade de celebrar unido, ainda que por apenas noventa minutos.
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
